A barbearia brasileira vive um momento de amadurecimento, no qual técnica, posicionamento e propósito caminham juntos. Dentro desse cenário, poucos nomes traduzem tão bem essa transformação quanto Allan Calixto. Com mais de 26 anos de carreira, o profissional paulistano construiu uma trajetória que atravessa o balcão, o palco, a educação e a indústria, tornando-se referência nacional e internacional no corte degradê.
Conhecido como Rei do Degradê, título atribuído pelo próprio mercado, Allan não se apresenta apenas como campeão mundial, mas como alguém que construiu autoridade a partir do fazer diário. “Eu comecei com o que eu tinha nas mãos, entreguei o meu melhor, construí uma identidade e, em cima dessa identidade, me tornei uma autoridade”, resume. Sua história é marcada por persistência, método e uma visão clara de que a barbearia pode mudar destinos.
Quem é Allan Calixto
Allan Calixto é um profissional com mais de duas décadas de atuação no mercado, natural de São Paulo, com 43 anos de idade e uma trajetória que percorreu praticamente todos os estados do Brasil. “Sou profissional há mais de 26 anos no mercado, rodei praticamente todos os estados, faltando apenas Roraima para fechar este ciclo”, conta. Filho de Ernani e Rosana, ele reconhece que o incentivo familiar foi decisivo para sua entrada na profissão em 1999.
O título de primeiro campeão mundial brasileiro de degradê não é tratado pelo profissional como um ponto de chegada, mas como um divisor de águas. “O degradê mudou a minha vida, mudou a minha história”, afirma. Mais do que o troféu, a conquista consolidou um posicionamento profissional que o projetou para além da cadeira de barbeiro, abrindo caminhos na educação, na indústria e no conteúdo digital.
O início da jornada e os primeiros desafios

A barbearia não surgiu como um sonho de infância. “Cortar cabelo foi algo que eu nunca imaginei”, relembra. No fim dos anos 1990, Allan tinha em mãos uma máquina simples comprada pelo pai no camelô e cortava cabelos como hobby. O ponto de virada veio ao vivenciar, pela primeira vez, um atendimento diferenciado em um salão. “Ali foi onde impactou a minha vida, foi onde eu consegui enxergar um corte de cabelo de outra forma.”
O amor pela profissão não foi imediato, mas construído. “Não foi amor à primeira vista, foi uma construção, uma dedicação em cima de algo que chamou minha atenção”, explica. Os desafios vieram cedo, especialmente a falta de oportunidades e a desconfiança de pessoas próximas. “Mesmo fazendo curso e cortando razoavelmente bem, dificilmente davam oportunidade.” Ainda assim, ele seguiu aproveitando cada chance para aprender.
Um dos episódios mais marcantes foi quando percebeu suas limitações técnicas. “Eu tentei fazer um corte todo na tesoura e não consegui. Ali eu falei: eu preciso aprender, eu preciso evoluir.” Esse momento desencadeou uma busca intensa por conhecimento, que rapidamente o levou a se destacar nos cursos e no mercado. “Ali eu vi que essa profissão poderia mudar minha vida.”
O título mundial e a virada de chave
A participação no Campeonato Mundial de Barbeiros, em 2014, no Rio de Janeiro, aconteceu quase como um impulso. “Eu nunca tinha participado de uma competição, não tinha experiência nenhuma”, relembra. Com apenas uma semana de preparação para uma prova de 25 minutos, Allan chegou a pensar que não estava pronto. “O máximo que eu conseguia era fazer um corte em 28 minutos.”
Mesmo assim, decidiu ir. “Eu eliminei alguns processos porque tinha menos tempo e Deus me abençoou.” O resultado foi histórico: o primeiro lugar na modalidade degradê. “Ali eu ganhei o primeiro campeonato mundial de barbeiros de degradê realizado no Brasil.” A partir desse momento, sua carreira ganhou projeção nacional e internacional, transformando reconhecimento em responsabilidade.
Da técnica à autoridade de mercado

Após o título, o mercado passou a enxergá-lo como referência. “As pessoas começaram a me procurar para ensinar, para especialização.” Foi nesse momento que ele entendeu a importância de estruturar uma identidade. “Eu construí a identidade do corte degradê. As pessoas batiam o olho e sabiam que aquele corte era do Allan Calixto.”
Essa identidade abriu portas para cursos, workshops e parcerias com grandes marcas. “Em cima da identidade eu me tornei uma autoridade”, afirma. Allan passou a representar marcas como Fox For Men, Super Barba, IGIC Barber e Barber Week, além de assumir papéis estratégicos como diretor educacional e mestre de cerimônias em eventos do setor.
O reconhecimento culminou no convite para ser coprodutor da linha Taiff Barber. “A Taiff viu meu trabalho, meus resultados e me chamou para fazer parte desse projeto.” Para ele, o envolvimento na criação de produtos é consequência direta da credibilidade construída ao longo dos anos. “Hoje, por conta da autoridade e da relevância, eu consegui empreender dentro de uma grande marca.”
O educador e a responsabilidade de ser referência

Com a visibilidade, veio também a consciência do impacto. “Quando você se torna uma referência, você tem uma responsabilidade muito grande com as pessoas.” Allan afirma que cuida com rigor do que comunica. “Eu prezo muito pela minha imagem, porque tem crianças, jovens, famílias que me acompanham.”
Ensinar se tornou parte central de sua missão. “Quanto mais a gente ensina, mais a gente aprende e mais pessoas a gente alcança.” Para ele, o conteúdo que transforma vidas é aquele que mostra a realidade da profissão, incentiva a constância e valoriza o processo. “O peso de ser uma referência é muito grande, e nem todo mundo entende isso.”
A assinatura do Rei do Degradê
A técnica que consagrou Allan é fruto de método e detalhe. “Depois do campeonato, eu comecei a criar métodos, métodos de corte, métodos de degradê.” A assinatura ficou conhecida pelo fade limpo, bem alinhado e pontilhado. “Eu sou o cara dos detalhes”, define.
A viralização de técnicas específicas, como o uso de dois pentes, ampliou ainda mais seu alcance. “Repercutiu não só nacionalmente, mas mundialmente.” Para o especialista, o segredo de um bom degradê está na montagem correta e na compreensão do método. “Todos os dias eu procuro fazer o meu melhor, porque essa responsabilidade me gera cobrança.”
O futuro da barbearia brasileira

Allan enxerga um mercado em crescimento, mas mais seletivo. “A barbearia não é para todo mundo.” Segundo ele, muitos que entraram apenas pelo dinheiro acabaram ficando pelo caminho. “Vai ficar só quem realmente gosta, quem realmente se dedica.”
Para o futuro, ele acredita que a base técnica seguirá sendo essencial. “Fazendo o arroz com feijão bem feito, quando surgir uma tendência, vai ser muito mais fácil replicar.” Para Allan, o diferencial estará nos detalhes, na finalização, no atendimento e no posicionamento profissional. “A barbearia vai elevar muito mais o nível.”
O legado que fica
Ao falar com quem está começando, Allan é direto. “Entregue sempre o seu melhor, independente do que você tem nas mãos.” Para ele, constância, estudo e humildade são inegociáveis. “Sempre vai ter alguém olhando você, seja cliente ou outro profissional.”

Sobre como deseja ser lembrado, a resposta resume sua trajetória. “Eu quero ser lembrado como o cara que ensina, compartilha, entrega o melhor dele sempre.” Para Allan Calixto, o verdadeiro título não está no troféu, mas no impacto. “O legado que eu quero deixar é de alguém que ajudou, apoiou e mudou vidas através da barbearia.”

Triskle