A Jornada de Willa – Cabelo Preto Tem História tem como protagonistas a filha e a falecida avó do cabeleireiro Juninho Loes, que há mais de 20 anos se dedica exclusivamente a cuidar de cabelos crespos e cacheados. “Além de enaltecer o cabelo crespo e a estética negra, acredito que o livro terá um papel essencial na formação de uma nova geração mais consciente e empoderada. Meu desejo é que ele seja um recurso nas escolas, nas casas, nos salões e nos espaços onde ainda há silenciamento. Que ajude pais, mães e educadores a iniciarem conversas com sensibilidade, mas também com firmeza. É uma ferramenta educativa, política e amorosa, porque se amar, no nosso caso, é um ato revolucionário”, diz ele, que é proprietário do salão Loes Saúde & Beleza em parceria com o irmão Fabio Loes.
Ativista do movimento negro, Juninho Loes afirma que o cabelo crespo ainda carrega marcas de opressão e negação, e que escrever para crianças foi uma forma de romper esse ciclo cedo. “Quando pais, cuidadores e profissionais se letram, eles ressignificam a forma que foram ensinados a ver o cabelo crespo e entregam às crianças uma narrativa onde possam se enxergar com orgulho, dignidade e pertencimento”, contou ele em entrevista para Negócios de Beleza Beauty Fair. Confira a seguir a conversa na íntegra.

Como surgiu a ideia de fazer o livro?
Juninho Loes – Minha motivação nasceu do desejo profundo de resgatar e afirmar a beleza, a história e a ancestralidade do nosso povo desde a infância. Como profissional da beleza e ativista do movimento negro, vejo diariamente o quanto o cabelo crespo ainda carrega marcas de opressão e negação. Escrever para crianças foi uma forma de romper esse ciclo cedo, criando uma conexão entre quem educa e é educado. À medida que os pais leem, eles também se letram e ressignificam a forma como foram ensinados a ver o cabelo crespo e, assim, entregam aos pequenos uma narrativa onde eles se veem com orgulho, com dignidade e pertencimento.
Como você acredita que o livro pode ajudar cabeleireiros e donos de salão?
Juninho Loes – O livro oferece um olhar sensível sobre a importância do cuidado capilar como ato político e ancestral. Para cabeleireiros, ele reforça que não trabalhamos só com estética, mas com memória, com identidade. Ter esse livro no salão pode ser uma forma de abrir conversas, educar clientes e inspirar equipes. É também uma ferramenta de posicionamento para negócios que querem ir além do embelezar e realmente fazer parte da construção de um futuro para nós, com uma nova consciência racial.
Poderia compartilhar alguns números do seu salão, que é especializado no atendimento a clientes com cabelos crespos e cacheados?
Fabio Loes – Em comparação ao ano passado, nosso faturamento aumentou 42% e o crescimento de clientes é de 16%. Os serviços mais realizados atualmente são reposição hídrica, corte em camadas combinadas, mechas e coloração, principalmente marrom e ruivo.
Hoje há inúmeras marcas de cosméticos capilares para cabelos crespos e cacheados. Por que vocês sentiram necessidade de lançar uma linha própria?
Juninho Loes – A maior parte das marcas ainda trata o cabelo crespo como “um problema a ser domado”. Fomos um dos primeiros a lançar uma linha com a nomenclatura “ativador de crespo” quando o mercado apostava no “ativador de cachos”. Temos três ativadores, de crespos, cachos e ondulados, valorizando a diversidade dos tipos de curvatura e enaltecendo o crespo.
Fabio Loes – A gente queria uma linha que conversasse com a filosofia do Loes Saúde & Beleza: que entendesse o crespo como potência. Foi daí que nasceu nossa marca, com fórmulas pensadas para realçar, tratar e respeitar o fio crespo, sem imposições estéticas. No salão, usamos exclusivamente a nossa linha porque ela foi desenvolvida com base na prática real com nossos clientes e no que aprendemos ao longo de duas décadas de cuidado.
A sua marca de cosméticos representa quanto no faturamento do salão? Há planos de investimento e expansão?
Fabio Loes – Hoje, a marca representa cerca de 31% do nosso faturamento, somando as vendas presenciais e online. E, sim, temos planos de expansão! Estamos estruturando novos canais de distribuição e avaliando pontos físicos parceiros. Também queremos ampliar nossa presença em feiras, eventos e formações para outros salões que queiram trabalhar com nossa linha.
Vocês dão workshop para cabeleireiros e donos de salão. Diante disso, quais são as maiores dores e dificuldades de quem busca a consultoria de vocês?
Juninho Loes – A maior dor é a insegurança. Muitos profissionais nunca foram ensinados a cuidar de cabelos crespos com profundidade.
Fabio Loes – Já na área da gestão, as maiores dificuldades são a gestão financeira e de pessoas.
Quais dicas vocês dariam para o cabeleireiro que, assim como vocês, deseja ter sucesso com clientes crespas e cacheadas?
Juninho Loes – A primeira dica é nunca se contentar com o básico e estudar profundamente o cabelo crespo, aprendendo a respeitar sua estrutura e celebrar sua estética. A segunda é ouvir suas clientes, já que muitas vezes as crespas e cacheadas não estão buscando apenas tratamentos capilares: elas querem afeto e reparação histórica através do cuidado. Cada uma carrega uma história com traumas, gatilhos e atravessamentos sociais, e o cabeleireiro precisa ser sensível a isso.
Fabio Loes – A terceira dica é: posicione-se. Ser um salão afrocentrado é uma escolha de coragem, mas também de responsabilidade. Quando você assume essa missão com verdade, o reconhecimento vem. Porque não é só sobre cabelo, é sobre identidade, propósito e potência.
Onde o livro pode ser encontrado?
Juninho Loes – Por se tratar de uma publicação independente, A Jornada de Willa – Cabelo Preto Tem História pode ser adquirida pelo Whatsapp (11) 97267-0203 ou pelos Instagram @juninholoes e @loesoficial.
