Você chega a um galpão de aparência abandonada, em uma rua fechada no centro de São Paulo, e nada indica que ali acontece o maior evento de beleza limpa do Brasil. O estranhamento é proposital. Antes mesmo do primeiro painel, os participantes são conduzidos por uma experiência sensorial e simbólica que expõe os impactos da humanidade sobre o planeta e, logo depois, apresenta a proposta de futuro defendida pelo Grupo Laces. No ar, o cheiro de capim-limão e lavanda ancora a vivência no corpo, anunciando que os próximos dias trazem vivências que, além de ouvidas, serão sentidas.
Esse foi o ponto de partida da COB 2026 – Conferência dos Biomas, realizada ao longo de três dias e liderada por Cris Dios e Itamar Cechetto, fundadores do Grupo Laces e idealizadores da rede de salões Bioma. Mais do que uma convenção interna, o encontro se posiciona como um fórum de pensamento para o setor, reunindo ciência, ancestralidade, tecnologia, comportamento e negócio sob um mesmo eixo, escrito nas camisetas de alguns participantes: bioagir não é tendência, é sobrevivência.

Do LACES aos Biomas
Referência internacional em beleza limpa, o LACES nasceu em São Paulo propondo uma ruptura com práticas químicas agressivas e reposicionando o cuidado com o cabelo como um ecossistema que envolve saúde, meio ambiente e educação. A criação dos salões Bioma amplia essa visão em escala nacional, estruturando uma rede que opera a partir de princípios comuns: responsabilidade ambiental, inovação consciente e desenvolvimento humano.
Durante a abertura, Cris conduziu uma meditação coletiva, seguida pela fala de Itamar, que apresentou a trajetória da rede, os novos salões pelo Brasil e sua expansão internacional. Um vídeo institucional resgatou conquistas simbólicas, como os oito desfiles assinados pelo LACES na Paris Fashion Week, enquanto a plateia reagia não como espectadora, mas como parte ativa dessa construção.
“A gente ensinou o Brasil a escutar os cabelos.”
Itamar Cechetto
Segundo dados apresentados no evento, o ecossistema da beleza limpa liderado pelo LACES já retirou 300 toneladas de produtos derivados de fósseis do mercado nos últimos 5 anos, ao substituir práticas e produtos convencionais por soluções alinhadas à saúde humana e ambiental. Mais do que um posicionamento conceitual, a proposta se traduz em impacto mensurável.
Ratanabá: mito, metáfora e direção estratégica
O conceito que norteia esta edição da conferência é Ratanabá, a cidade amazônica que teria desaparecido. A pesquisadora Cleicí Patauá conduziu uma das falas mais potentes do primeiro dia ao deslocar o debate da comprovação histórica para o campo simbólico.
Faz diferença se Ratanabá existiu ou não? Para ela, não. O que importa é reconhecer que a humanidade já soube habitar o planeta de forma mais harmônica e que imaginar futuros diferentes exige coragem coletiva.
“Consumo e produção mais conscientes dependem de como nós, enquanto humanidade, nos imaginamos como parte da natureza. O futuro não é um lugar distante. É onde nossos filhos estarão.” Cleicí Patauá
A reflexão atravessou os dois primeiros dias de programação: toda escolha precisa carregar responsabilidade com o futuro.
Anderson Vescah e o conceito que virou imagem
O primeiro dia da conferência foi encerrado com um desfile que traduziu em imagem tudo o que havia sido debatido até ali. Assinado pelo stylist Anderson Vescah, o momento funcionou menos como apresentação de moda e mais como manifesto visual do conceito Ratanabá. As criações partiram das origens, da terra e da ideia de retorno ao essencial, não como nostalgia, mas como estratégia de futuro.
A beleza do desfile ficou por conta dos cabeleireiros chamados ao palco, com o uso da argila descolorante, recém-lançada pela marca. Mais do que um produto em cena, a argila apareceu como símbolo de uma nova lógica técnica e estética: clarear respeitando a saúde do fio, permitindo liberdade criativa, gestos artesanais e personalização. O cabelo deixa de ser suporte da moda para se tornar parte ativa da narrativa.
No cruzamento entre moda, cabelo e território, o desfile evidenciou que a beleza limpa não é uma limitação estética, mas um campo de expansão criativa.

A potência do coletivo
Um dos formatos centrais da conferência foram os Bioma Talks, espaços de troca entre lideranças da rede, empreendedores convidados e especialistas. O conceito parte da ideia de que cada Bioma é um território vivo de inovação, com desafios próprios, soluções locais e impacto real.
A noção de coletivo foi aprofundada no palco por Cris e Itamar com o que chamam de “Dupla potência”. Para Itamar, o “nós” não existe quando usado como retórica vazia. O coletivo, segundo ele, não nasce da soma de individualidades, mas da decisão diária de “fazer por nós o tempo inteiro”. “Desde o primeiro dia eu me dedico ao coletivo. Esse é um dos valores que eu não negocio”, afirmou.
A fala trouxe à tona um eixo central da rede: propósito e confiança como estruturas de crescimento. A reciprocidade, nesse contexto, não é matemática perfeita, mas alinhamento de direção, e deve se manifestar na forma como cada líder olha para sua equipe e sustenta processos, mesmo no desconforto. Construir coletivo exige atenção contínua às pessoas, coerência nas decisões e disposição para cuidar. É nesse exercício cotidiano que a confiança deixa de ser discurso e se transforma em cultura.
Os Biomas recebem suporte contínuo e direcionamento estratégico em gestão, governança e crescimento, com acompanhamento voltado para performance e aumento de resultados. Essa organização se apoia no Código LACES, metodologia que estrutura o negócio a partir de três pilares ensinados a todos os colaboradores: método, frequência e produto. O coletivo, portanto, não é apenas conceitual, mas operacional e orientado a resultados.
Ao longo dos três dias, cerca de 70 salões de todo o país compartilharam experiências reais de gestão, crescimento e adaptação cultural. O caso de Silvio Amaral, do Bioma Silvio Amaral, em São José do Rio Preto, com o maior ticket médio da rede, evidencia que quando o salão deixa de operar sozinho e passa a integrar um ecossistema estruturado, desempenho e propósito deixam de ser opostos e passam a caminhar juntos.
“Quando a coletividade fica ausente, a representação é fraca. Quando eu não cuido da natureza, o sistema responde.”
Márcio Michelasi, presidente do Sindicato Nacional Pró-Beleza.
Crescimento de até 81%: quando propósito se transforma em resultado
Esse alinhamento coletivo reflete diretamente nos números: salões que se tornam Bioma chegam a registrar crescimento de até 81%. O dado surge como consequência de uma mudança estrutural, na qual o salão passa a operar com identidade clara, diferenciação técnica e narrativa consistente. Mas o número ganha força quando encontra histórias reais.
No Bioma Santos, Adriano Zeni e Fábio Benetti estão há 11 meses na rede. Fábio atuou por 18 anos no modelo convencional antes da transição. “Me cansei de uma estética vazia e hoje ofereço uma experiência de cuidado profunda, com atendimento humanizado que promove saúde e bem-estar”, afirma. Para ele, o principal diferencial é fazer parte de uma comunidade estruturada de beleza saudável e poder entregar isso aos clientes, com produtos que chegam a até 97% de ativos naturais.
O caso de Silvio Amaral, em São José do Rio Preto, traduz essa mudança em números. Antes de se tornar Bioma, seu ticket médio girava em torno de R$400. Hoje, chega a R$1080 — o maior da rede. “No Bioma, trazemos a cliente para perto, olhamos no olho e criamos proximidade com ela, com o mundo e com a natureza. É uma beleza que cura e transforma”, relata. Para ele, a virada acontece quando o profissional deixa de ocupar apenas o lugar de artista e passa a ocupar o lugar de escuta.
O Bioma é hoje a única rede de salões do Brasil que realiza compensação de carbono, integrando responsabilidade ambiental à lógica financeira do negócio. O resultado não está apenas na narrativa, mas na estrutura: método claro, diferenciação técnica, posicionamento premium e pertencimento a uma rede que compartilha inteligência de mercado.
“Não somos especialistas, mas praticantes da sustentabilidade”.
Itamar Cechetto
Ser Bioma, portanto, é integrar uma estrutura que combina coletividade, posicionamento premium e resultado financeiro consistente.
O futuro é ancestral
A ancestralidade atravessou a Conferência dos Biomas de forma estrutural. Se no primeiro dia a estilista indígena Day Molina trouxe uma leitura estratégica sobre criatividade aplicada ao negócio — defendendo que o trabalho criativo só se completa quando permeia toda a cadeia produtiva, da matéria-prima à narrativa —, no terceiro dia essa discussão ganhou contornos ainda mais profundos.
À frente de uma empresa formada por pessoas indígenas, com dez anos de atuação no mercado de moda, Day mostrou que ancestralidade não é passado, mas tecnologia cultural em expansão. Sua participação na Semana de Moda de Designers Emergentes em Paris, reforça que tradição e contemporaneidade não competem, mas se fortalecem.
A potente entrada de Jennyffer Bransfor Tupinambá ampliou esse eixo ao trazer a importância dos povos originários na manutenção da floresta e no equilíbrio dos territórios. O desenvolvimento, ali, é responsabilidade com as raízes.
Cris reforçou essa direção com a frase “o futuro é ancestral”. Segundo ela, tudo o que chega como inovação ao LACES respeita o caminho da ancestralidade. “Somos natureza e nos inspiramos nela para criar”, sintetizou.
A resistência, para Itamar, está em não perder o contato com valores, princípios e conhecimentos que já provaram funcionar ao longo do tempo. A provocação é clara: inovação verdadeira pode estar, justamente, na capacidade de preservar o que sustenta.
Tecnologia, felicidade e o futuro dos salões
O segundo dia aprofundou o debate sobre comportamento, tecnologia e gestão. Natália Brandão, diretora de educação do TikTok para a América Latina, destacou a importância da construção de comunidades e da democratização das vozes.
Já o pesquisador Gustavo Arns, referência em ciência da felicidade, trouxe dados da psicologia positiva e da neurociência para questionar um dos pilares do pensamento ocidental: a crença de que o sucesso leva à felicidade.
“São as pessoas mais felizes que tendem a ter mais sucesso ao longo da vida.”, destacou.
A partir dessa provocação, Itamar anunciou o compromisso de criar a primeira rede de salões do mundo orientada pela “Felicidade Interna Bruta”, com a formação de um comitê dedicado ao tema.
No campo do mercado, Cesar Tsukuda, CEO da Beauty Fair, apresentou números e tendências do setor, destacando hiperpersonalização, inteligência artificial e o papel dos profissionais como grandes influenciadores de beleza.
“A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa de retaguarda, mas jamais substituirá a capacidade humana de criar vínculos.”
Cesar Tsukuda.
Comportamento como diferencial competitivo
A comunicação também apareceu como eixo estruturante do futuro da beleza. Em sua fala, Camilla Menezes, especialista em comunicação vital, trouxe uma leitura comportamental que dialoga diretamente com os desafios de liderança, atendimento e posicionamento vividos pelos salões hoje. Para ela, presença não é carisma performático, mas um estado de confiança sem arrogância, construído na clareza interna e na capacidade de sustentar o desconforto.
Ela destaca que o carisma pode até ligar e desligar, mas a presença verdadeira se sustenta no tempo, especialmente em contextos de tensão e exposição. “Onde encontro quem sou com clareza?” foi uma das provocações centrais, apontando que comunicação eficaz começa menos na técnica e mais na consciência de quem fala.
Ao apresentar o conceito de “happy high status”, a especialista desloca a ideia de liderança autoritária ou distante para um lugar de funcionalidade emocional: estar bem consigo para gerar segurança no outro. Em um setor que depende profundamente de relações humanas, escuta ativa e confiança, a comunicação deixa de ser apenas ferramenta de marketing e passa a operar como infraestrutura invisível do negócio.
Inovação técnica: a Argila Descolorante
Entre os lançamentos, o Bioma apresentou sua argila descolorante, um produto com nove níveis de clareamento, alta performance e foco na saúde do fio. Desenvolvida para permitir técnicas artesanais e personalizadas, como o free hands, ela facilita a visualização da cor e respeita a integridade do cabelo.

A proposta dialoga com outro lançamento apresentado no evento: o secador Nanoe™ da Panasonic, lançado no Brasil em parceria com o LACES. Com tecnologia de hidratação ionizada, o equipamento reposiciona o secador — historicamente visto como vilão — como parte ativa do tratamento capilar.
O ponto de venda como protagonista da regeneração
Para Itamar, as pessoas que entram na beleza limpa se tornam protagonistas de uma mudança maior. A COB, segundo ele, cria a reflexão necessária dentro do mercado profissional sobre escolhas de matéria-prima, responsabilidade coletiva e legado.
Cris foi direta ao afirmar que “o consumo é um ato político”. Dentro dessa lógica, cada decisão tomada dentro do salão contribui para formar uma cultura mais coletiva, de dentro para fora. Se o profissional compreende seu papel como agente de transformação, o consumo deixa de ser automático e passa a ser consciente.
“Precisamos evoluir o setor da beleza profissional”, reforçou Itamar. Para ele, o ponto de venda precisa deixar de ser apenas canal de serviço para se tornar motor de um varejo regenerativo. Quando matéria-prima, discurso, prática e cultura caminham na mesma direção, o salão deixa de ser apenas espaço de atendimento e passa a ser território de mudança.
A Conferência dos Biomas propõe um caminho no qual a beleza deixa de ser apenas produto ou serviço e passa a operar como cultura, educação e compromisso de longo prazo. Dela, nasce uma provocação estrutural ao setor: qual legado a beleza profissional quer construir? Se o futuro é ancestral, como defendem seus fundadores, então a regeneração começa nas raízes e se sustenta nas escolhas diárias. E talvez esse seja o convite mais potente da COB 2026: transformar o ponto de venda em ponto de partida.


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