Prazer, sou Débora Maciqueira, diretora de educação da L’Oréal Produtos Profissionais. Feliz demais por estrear como colunista do portal Negócios de Beleza Beauty Fair, convite que chegou como um presente por me dar espaço para compartilhar ideias e inspirações sobre educação com quem faz o mercado de beleza no Brasil: você, profissional. Começo abrindo o coração: ano passado entrei naquela fase da vida em que a gente se questiona sobre propósito, o que estamos fazendo aqui, o quanto estamos contribuindo, qual o nosso legado. Foi nesse contexto que, após 20 anos trabalhando em marketing, assumi a cadeira de educação da L’Oréal, onde cheguei com a inquietude de querer entregar algo mais do que um grande lançamento. Para entender mais de educação, fiz uma rodada no Brasil inteiro para chegar a todos os lugares onde tínhamos um educador, todos cabeleireiros por excelência. Foi incrível sair do eixo Rio-São Paulo (e de trás do computador) para conhecer verdadeiramente o time e, mais do que a profissão, o profissional.
As histórias que ouvi sobre o que motiva essas pessoas, de onde elas vêm, o orgulho que têm, eram muito parecidas e me fez pensar que o tema ali não era “só” educação, mas transformação de vidas. Esse mergulho também me trouxe várias reflexões sobre a profissão no Brasil. Hoje, hair care não é a maior categoria de beleza do Brasil, mas, de longe, é a que tem mais conversas nas redes sociais. E boa parte orgânica dessas conversas é liderada por cabeleireiros. Obviamente, alguns se destacam, os “cabeleireiro-celebridades”, como Washington Nunnes, Alan Vivian, Romeu Felipe, Léo Silva e Marco Antonio de Biaggi, por exemplo, que têm milhares de seguidores, uma influência imensa, mas o fato é que a profissão dita sim o comportamento da consumidora.
O que me leva a outro questionamento, que passa muito pelo que ouvi no campo e de profissionais: a falta de valorização e reconhecimento da profissão. Talvez por não ser regulamentada, e ter uma pequena nata de celebridades, ser cabeleireiro muitas vezes não é motivo de orgulho para amigos e familiares, dito como “um caminho” fácil – apesar de serem pessoas que levam educação muito a sério, trabalham mais horas do que uma jornada de trabalho usual, e ainda ganham quase o dobro da média da população. Escutei muitos falando que a mãe sonhava que ele fizesse faculdade, mas, que acabou “virando cabeleireiro”. Pequeno, né? Mesmo por vezes se tornando o mais bem-sucedido de sua família!
Por que, então, essa falta de valorização de uma profissão que envolve muito estudo, atualização, dedicação, tempo, disciplina? Uma analogia, que não é minha mas sempre uso, é que o meu sonho é que a gente consiga fazer com a profissão do cabeleireiro o que foi feito com o chef de cozinha um tempo atrás. Esse foi um movimento do mercado gastronômico inteiro, que valorizou algo tão “básico” quanto cozinhar e fez as pessoas se orgulharem de terem um chef na família. Coisa que há algum tempo também soaria estranho você ouvir do seu filho de 10 anos que ele quer ser cozinheiro. Mas, agora, “ser chef” é mais do que bem visto. Penso que esse é o caminho que a gente também precisa fazer enquanto setor, o que inclui nós, da indústria, associações, salões… todo mundo. Quando um menino falar que quer ser cabeleireiro quando crescer, ter o mesmo orgulho que teríamos quanto qualquer outra profissão.
Mas esse é só o primeiro desafio. Porque tem um deles que é ainda mais profundo, que a indústria gastronômica também não conseguiu solucionar: o fato de grande parte das “celebridades” do setor serem em geral homens brancos. Na pesquisa que fizemos com mais de mil profissionais, “Raiz do Pro”, descobrimos que mais de 60% deles são mulheres pretas e pardas. Mas não são essas pessoas que vemos como celebridades do mercado e a frente de grandes marcas. E até nos orgulhou muito ver que a Vivi Siqueira, nossa embaixadora, foi a única mulher citada entre os top 8 nomes de referências de sucesso para esses profissionais. É uma questão de representatividade da população, que se reflete também quando fazemos um recorte no grupo de cabeleireiros. E aqui, temos muito a fazer ainda…
Deixo essa reflexão e voltamos a falar sobre ela na próxima coluna, combinado?

Triskle