O mercado de beleza brasileiro acaba de viver um marco que vai além da estética: é também sobre identidade, empreendedorismo e justiça social. Em junho, durante as comemorações do Dia da Pessoa Trancista, a profissão de trancista foi oficialmente incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sob o código 5161-65, tendo a regulamentação das trancistas, como destacou o portal Mundo Negro em sua cobertura.
Mais do que uma conquista burocrática, a regulamentação é o reconhecimento formal de uma atividade que há décadas movimenta bilhões de reais no Brasil, e que carrega, em cada fio trançado, um saber ancestral passado de geração em geração, principalmente entre mulheres negras.
Agora, as profissionais passam a ter acesso facilitado a cursos de qualificação, emissão de notas fiscais, contribuição para o INSS via MEI, abertura de negócios formais e, principalmente, maior visibilidade e respeito dentro do próprio setor de beleza, onde ainda enfrentavam obstáculos para formalizar sua atuação.
“O mais urgente é o reconhecimento do valor cultural, histórico e identitário das tranças. O nosso saber não veio de uma sala de aula tradicional, ele vem da oralidade, da vivência nas periferias, da ancestralidade africana que resiste em cada fio trançado”, afirma a trancista e ativista Denise Melo em entrevista ao jornal A Tarde.
Regulamentação das trancistas: oportunidades para indústria e varejo

Para a indústria e o varejo de beleza, a regulamentação das trancistas não é apenas uma vitória das profissionais, mas também uma ampliação concreta de mercado. Com a formalização, cresce a demanda por:
- Cursos e certificações profissionalizantes que vão qualificar ainda mais o segmento.
- Produtos e equipamentos específicos, como linhas de manutenção, tratamento e finalização de tranças.
- Parcerias comerciais com salões e estúdios especializados, ampliando o portfólio de serviços oferecidos ao consumidor.
- Apoio a empreendedoras negras, fortalecendo o ecossistema de negócios locais e inclusivos.
Além disso, a regulamentação pode estimular o surgimento de novas marcas e linhas de produtos dedicadas a atender um público que há tempos movimenta o mercado, mas nem sempre tinha sua especificidade reconhecida de forma institucional.
Um divisor de águas para o setor
A vereadora Ireuda Silva (Republicanos), de Salvador (BA), foi uma das grandes articuladoras da medida junto ao Ministério do Trabalho, em Brasília. O apoio político foi essencial para transformar uma luta antiga em realidade. “Ver uma mulher preta em posição de poder nos representando e abrindo caminhos foi extremamente inspirador”, destacou Denise.
Agora, a expectativa das lideranças do setor é que a regulamentação não seja um ponto de chegada, mas sim um ponto de partida. Como defende Denise, ainda é preciso garantir o acesso a políticas públicas, incentivos ao empreendedorismo negro e fomento à educação continuada, para que mais profissionais possam transformar seu talento em negócios sólidos e sustentáveis.
Para um setor que busca se reinventar constantemente, a regulamentação das trancistas é, antes de tudo, um avanço cultural, econômico e social, e uma nova chance para a indústria enxergar, com ainda mais força, a potência da beleza afro-brasileira.

Triskle