O gourmand — com notas comestíveis como baunilha, chocolate, café e frutas — deixou a perfumaria e ganhou espaço em maquiagem, bodycare e no varejo físico, passando a inspirar ações imersivas como o Sweet Day da Soneda, que reúne lançamentos inspirados em doces e oferece degustações para aumentar o tempo de permanência e a experimentação. A tendência, que teve início com fragrâncias há mais de 30 anos (Angel, 1992), segue em expansão e, no Brasil, notas gourmand cresceram 12% no primeiro semestre em fragrâncias, com demanda de busca 21,6% ao ano, indicando oferta ainda insuficiente. Marcas de diferentes portes apostam no movimento (Bruna Tavares Banana; Nina Makeup Coffee Make; Marc Jacobs Daisy gourmand; Nina Ricci Nina Eau de Parfum; O Boticário; Dailus), e o território chega também ao skincare com Rhode. O varejo mira experiências: lojas imersivas aumentam permanência e intenção de compra, com exemplos da Laneige e Rhode em cafeterias e pop-ups, além de collabs entre beleza e alimentação no Brasil. O gourmand consolidou-se como plataforma de negócios que conecta desenvolvimento de produtos, experiência de compra e estratégias de varejo, ampliando oportunidades de inovação e venda cruzada.
Resumo supervisionado por jornalista.Se o mundo da beleza tem um sabor predominante nos últimos meses, ele é doce. Notas de sorvete, café, baunilha e frutas vermelhas passaram a estampar lançamentos de fragrâncias, maquiagem e bodycare, enquanto o varejo físico descobriu que reproduzir essas sensações dentro da loja pode ser uma forma eficaz de aproximar consumidor e marca.
É o caso da rede Soneda, que promove o Sweet Day, uma ativação criada para transformar a tendência gourmand em experiência de compra. A ação reúne marcas com lançamentos inspirados em notas doces e ingredientes como baunilha, chocolate, café, frutas e sobremesas, enquanto oferece ao consumidor degustações e alimentos relacionados a esse universo sensorial dentro da loja. A proposta é ampliar o tempo de permanência no ponto de venda, estimular a experimentação dos produtos e criar uma associação direta entre os acordes presentes nas fragrâncias e cosméticos e a experiência gastronômica vivida pelo consumidor. Mais do que uma ação promocional, o Sweet Day exemplifica como o varejo começa a utilizar o território gourmand como plataforma de relacionamento, experiência e ativação comercial.
Tendência com mais de três décadas
O sucesso de iniciativas como a da Soneda acompanha um movimento que está longe de ser passageiro. O território gourmand não é novidade na perfumaria. A categoria consiste primariamente em notas sintéticas comestíveis, como mel, chocolate, baunilha ou doces, e tem no perfume Angel, de Thierry Mugler, lançado em 1992, o marco fundador do gourmand moderno. De lá para cá, a presença dessas notas na perfumaria cresceu de forma constante, o que reforça a leitura de que não se trata de um modismo passageiro, mas de uma categoria consolidada que, mais de 30 anos depois de seu marco inicial, segue em expansão e ganhando novos formatos.
No Brasil, os dados recentes sustentam esse auge. Segundo a Circana, notas gourmand como cereja, caramelo e baunilha ganharam espaço no mercado de fragrâncias. Em termos de mercado como um todo, o levantamento aponta que a categoria de fragrâncias manteve forte performance no Brasil, com crescimento de 12% no primeiro semestre.
Uma análise independente que cruzou 15 relatórios de tendência do setor com dados de mais de 1,5 mil lançamentos de perfumes entre 2025 e 2026 chega a um dado que reforça esse cenário: fragrâncias gourmand e adocicadas lideram o crescimento de interesse de busca do consumidor, com alta de 21,6% ano a ano, a maior entre as categorias olfativas, mas ainda estão sub-representadas nos lançamentos efetivos das marcas, hoje dominados por notas de almíscar, rosa e âmbar. Na prática, isso indica que a demanda por gourmand segue à frente da oferta da indústria.
Expansão para além da perfumaria
O apelo gourmand deixou de ser exclusividade da perfumaria fina e passou a atravessar categorias. Em maquiagem, Bruna Tavares apresentou a linha BT Banana, que une maquiagem e tratamento em fórmulas com fragrância gourmand inspirada na banana, dentro do conceito de Brasilcore. Já a Nina Makeup lançou Coffee Make, coleção de glosses que traduz o universo do café em experiência de beleza sensorial.

Na perfumaria, o movimento segue firme entre marcas de diferentes portes. Marc Jacobs relançou a linha Daisy em versão floral gourmand, com abertura frutada cremosa e nota inusitada de flor de chocolate, enquanto a Nina Ricci apresentou Nina Eau de Parfum, floral gourmand amadeirada com pistache no centro da composição. O Boticário reforçou a categoria por dois caminhos: com o retorno de Nativa SPA Baunilha Exclusive, em edição limitada, e com a linha Botica 214 Arabian Oasis, que inclui uma versão floral frutal gourmand entre as duas fragrâncias do lançamento. No bodycare, a Dailus ampliou a linha Sweet Skin Ice Cream com três novas fragrâncias, todas classificadas pela marca dentro de subcategorias gourmand.
O avanço do território gourmand também pode ser observado em categorias voltadas ao skincare. Marcas internacionais como Rhode transformaram o universo das sobremesas em parte da identidade da marca, lançando tratamentos labiais inspirados em sabores como Cinnamon Roll, Salted Caramel e Passionfruit Jelly. A estratégia extrapola o produto e reforça a construção de uma linguagem sensorial que dialoga diretamente com o consumidor nas redes sociais e no varejo.

O movimento evidencia que o gourmand deixou de ser uma assinatura olfativa restrita aos perfumes para se transformar em uma linguagem sensorial capaz de atravessar diferentes categorias de beleza, ampliando oportunidades de inovação e venda cruzada.
Varejo transforma tendência em experiência
Se o produto carrega a tendência, o varejo físico tem sido o espaço escolhido para aprofundá-la. Levantamento da consultoria McKinsey aponta que ambientes de loja com propostas imersivas aumentam em até 30% o tempo de permanência do consumidor, elevam a intenção de compra e transformam pontos de venda em destinos de experiência. Isso significa que tendências deixam de viver apenas nas embalagens e passam a orientar ambientação, ativações, degustações, brindes, visual merchandising e campanhas sazonais. Em vez de simplesmente expor produtos, as lojas criam experiências capazes de estimular os sentidos e fortalecer o vínculo emocional com as marcas.
Essa tendência já aparece em iniciativas de diferentes mercados. A Laneige, por exemplo, realizou em países como Coreia do Sul, Estados Unidos e Singapura ativações temporárias em formato de cafés e pop-ups para divulgar seus lip treatments inspirados em frutas e sobremesas, enquanto a Rhode, nos Estados Unidos, promoveu experiências com carrinhos de sorvete e cafeterias temporárias para conectar seus lançamentos ao universo gastronômico. Em ambos os casos, o produto deixa de ser apenas um item de beleza para se tornar parte de uma experiência compartilhável e altamente fotografável.

Essa estratégia também aparece em outros segmentos do varejo. Marcas de cosméticos têm recorrido a cafeterias, confeitarias e ativações gastronômicas temporárias para lançar produtos inspirados em sobremesas, cafés e doces, enquanto redes especializadas utilizam ilhas temáticas, kits presenteáveis e demonstrações sensoriais para ampliar o ticket médio e incentivar a experimentação entre categorias.
No Brasil, além da Soneda, esse tipo de aproximação também tem ganhado espaço por meio de collabs entre marcas de beleza e redes de alimentação. Um exemplo recente é a parceria entre Cetaphil e We Coffee, que transformou cafeterias em ponto de contato da marca por meio de um cardápio exclusivo e de uma experiência sensorial criada para reforçar atributos dos produtos. Embora não tenha como foco o universo gourmand da perfumaria, a iniciativa evidencia uma tendência maior: levar a experiência da beleza para além das prateleiras tradicionais.
Mais do que uma tendência olfativa, o gourmand consolida-se como uma plataforma de negócios que conecta desenvolvimento de produtos, experiência de compra, relacionamento e estratégias de varejo. À medida que novos lançamentos chegam ao mercado, cresce também o espaço para que lojas transformem o apelo sensorial desses produtos em diferenciação competitiva dentro do ponto de venda. A tendência também se reflete no varejo brasileiro. Iniciativas como o Sweet Day, da Soneda, mostram que redes especializadas começam a transformar esse universo sensorial em experiências capazes de gerar engajamento, ampliar o tempo de permanência nas lojas e fortalecer a conexão entre marcas e consumidores.
