Para quem não acredita que sonhos podem carregar mensagens subliminares, aqui vai um alerta: a história de sucesso de Elis Palma começou por ela ter interpretado que a fita rosa de inauguração em seu sonho indicava o tipo de negócio que deveria investir. “Na época, eu era gerente de faturamento em uma transportadora, estava esgotada e decidida a não trabalhar mais para os outros. Daí, vi naquela fita rosa um sinal de que deveria abrir um negócio voltado para mulheres. Como não sabia o que era, passei a pesquisar o que faltava na minha cidade, Paranaguá, a principal do litoral paranaense, com cerca de 145 mil habitantes”, conta.
O estalo aconteceu quando uma amiga convidou Elis para ir à Curitiba comprar maquiagens; e ela foi, mesmo não tendo o hábito de se produzir. Como a loja só permitia compras acima de R$ 200, o combinado era cada uma arcar com R$ 100. “No fim, minha amiga gastou R$ 500 e eu, R$ 1 mil. Ali pensei “é isso!”, até porque Paranaguá não tinha uma loja só de make”.
Veia empreendedora
Usar R$ 30 mil da rescisão do emprego para abrir o próprio negócio foi um caminho natural para Elis, que já vendeu salgados na rua, marmita no porto e atuou como representante comercial. “Em todas essas experiências trabalhei sozinha, mas sabia que na Loucas por Make precisaria de ajuda. Primeiro, porque eu não era ligada em beleza, e menos ainda em maquiagem; e, segundo, porque fui levada a gastar 10 vezes mais naquela loja de Curitiba porque um vendedor ficou o tempo todo ao meu lado falando apaixonadamente sobre os produtos, o que combinava com a minha pele, como eu poderia usar etc. Ali entendi que precisava de um funcionário como ele: louco por make. Até hoje é isso que orienta a nossa contratação, não se a pessoa tem experiência com vendas”, diz.
Definido o tipo de negócio, Elis alugou um espaço de 6 m2 por 4 m2 e recheou as prateleiras com produtos que até então eram encontrados somente em Curitiba e na internet, como Mari Maria Makeup e Bruna Tavares. Era novembro de 2019, e quatro meses depois foi decretado o lockdown. Para não ficar parada, a empreendedora colocou organizadores em seu carro, transformando-o em uma loja itinerante. “Cheguei a vender R$ 600 em casas que sequer tinham portão; e foi quando entendi que precisava oferecer também itens econômicos. Dito e feito: na Páscoa tive a ideia de montar cestas de chocolate com as makes e fiz R$ 10 mil em apenas três dias; e, quando a loja reabriu, com o consumidor ansioso por voltar às compras presenciais, as vendas explodiram a ponto de meu pior faturamento mensal ser de R$ 77 mil, com pico de R$ 100 mil”, lembra Elis, que se animou para abrir o segundo endereço.
A escolha foi uma galeria com cinema, praça de alimentação e estacionamento, em um box de dois andares, cada um com 55 m2, com a parte de cima reservada a um estúdio e cursos de automaquiagem. No primeiro mês o faturamento dessa nova loja com a antiga foi de R$ 250 mil. “Acreditei que com a primeira unidade poderia performar ainda melhor, então, a levei para um bairro mais retirado, só que onde tinha muitas clientes. No mesmo período, inaugurei mais uma filial – a intenção era fazer um triângulo com as três lojas para “fechar” a cidade”.
Nem tudo que reluz é ouro
Elis foi convidada pelo dono da galeria a levar sua marca para um novo shopping que ele estava abrindo a 90 km dali, em Curitiba. “Pensei que estar na capital seria um ponto de virada, mas passei um sufoco. Tudo era diferente: o público, os funcionários, o atendimento, a concorrência. Além de várias lojas atuarem no mesmo segmento que o meu, as farmácias quase me mataram por oferecerem make a preço de banana como chamariz para comercializarem mais remédios. Junte aí o desgaste de ter que viajar toda semana e o fato de que o curitibano é reservado e não gosta de muita conversa e intimidade, que é tudo o que eu faço com sucesso em Paranaguá”.
Entender essa nova dinâmica não foi fácil porque em sua trajetória profissional Elis aprendeu que humanizar o relacionamento era a chave para ganhar o cliente. “Com o tempo fui me moldando a ponto de decidir abrir mais uma filial em Curitiba, em outro shopping, totalizando cinco Loucas por Make, todas administradas por mim e que, juntas, faturaram R$ 350 mil em dezembro de 2022”.
CEO e faz-tudo
Como administrava as cinco lojas sozinha, aí incluídos 17 funcionários, Elis construiu os processos internos a partir de problemas que iam surgindo. “Com essas dinâmicas definidas e colocadas no papel, para que todos pudessem acessar sem depender de mim, tive liberdade para me dedicar a funções como acompanhar os números bem de perto e fazer mudanças com mais agilidade. Daí eu ter controle das metas diárias, semanais e mensais de cada unidade, saber quanto cada um loja gasta com produto de limpeza, imposto, salário, contabilidade, jurídico, estoque… Tudo isso me dá clareza e segurança para fazer movimentos, grandes inclusive, como mudar de endereço para estar em regiões mais estratégicas, reduzir custos, experimentar diferentes públicos e aprofundar o entendimento do meu cliente”, lista.
Elis dá dois exemplos de mudanças: “Em uma, fui de um espaço de 24 m2 com aluguel de R$ 6 mil e faturamento de R$ 20 mil a R$ 30 mil para outro de 186 m2, aluguel de R$ 4 mil e faturamento de R$ 70 mil. Em outro momento, troquei a loja de dois andares por uma térrea, eliminei o estúdio e o curso de automaquiagem e preenchi as prateleiras com bolsas, cintos e outros acessórios que aumentaram significativamente o ticket médio. Vejo essas mudanças como um jogo de xadrez, e minha próxima jogada será buscar novos espaços em Paranaguá ou mais para o interior para poder encerrar os negócios em Curitiba”, avisa.

Erros que levam a acertos
A falta de conhecimento no negócio e a “esperteza” de alguns fizeram com que Elis cometesse alguns deslizes no início. “Comprei muito produto que não deveria, exagerei em estoque, embarquei na falsa urgência de ter todos os lançamentos assim que saíssem, sofri para sair da posição de empregada para empregadora, tomava decisões baseadas no que eu acreditava… Mas, nada como o tempo e as escorregadas para a gente aprender. Com o tempo, desenvolvi um jeito de falar para a equipe o que eu queria, entendi como usar os dados para fazer escolhas mais assertivas na gestão, passei a usar as caixinhas das redes sociais para perguntar direto para o cliente se ele tinha interesse naquele produto novo antes de sair fazendo pedidos. Escuta, aliás, é o melhor GPS que um empreendedor pode ter para conhecer seu cliente e fazer com que o funcionário tope vestir a camisa”, garante.
Neste ano, Elis inovou com um projeto de ter pontos de venda de seus produtos nas lojas de conveniência de uma rede de cinco postos de gasolina. “Cedo os itens a um preço especial para a dona do local, já que ela cuida de tudo e eu não tenho custo com aluguel, funcionário, água, luz, nada. Juntas, fizemos collabs para anunciar a novidade e já no primeiro mês faturei uma média de R$ 4 mil em cada posto, sem fazer qualquer esforço”.
Para o ano que vem, a meta é tirar do papel um propósito que mexe com o coração da fundadora da Loucas por Make: o de ter revendedoras externas, em um grupo formado por mulheres que querem ajuda para se livrar da dependência financeira e da violência doméstica. Antes disso, o foco atual está no TikTok Shop e no Mercado Livre. “A ideia surgiu na Confraria Beauty Fair 2025, um evento de negócios realizado pela Beauty Fair que reúne marcas e distribuidores, promove troca de ideias e movimento do mercado da beleza. O encontro foi a cereja que faltava no meu bolo ficar ainda melhor”.
