A perfumaria está atravessando uma transformação impulsionada pelas fragrâncias funcionais, que visam provocar respostas emocionais mensuráveis por meio da neurociência aplicada aos aromas. Gigantes do setor investem em plataformas que mapeariam respostas cerebrais e biomarcadores—como a emotiOn da dsm-firmenich e a WELLMOTION da MANE—para prever impactos de relaxamento, foco, bem‑estar e interação social, respaldadas por pesquisas acadêmicas, com o mercado global de fragrâncias funcionais projetado para superar US$ 20 bilhões até 2035. No radar estão testes com eletroencefalografia, biomarcadores salivares e outras métricas, além de lançamentos que associam notas específicas a estados emocionais, como lavanda para relaxamento, cítricos para ânimo e madeiras para estabilidade, sem prometer controle definitivo das emoções. No Brasil, a Natura já comercializa MoodBoosters, com estudos de resposta cerebral em 160 consumidoras, sinalizando potencial regional. O texto enfatiza que, embora a neurociência valide empírico conhecimento de perfumistas, a credibilidade depende de hipóteses claras, metodologia rigorosa e validação objetiva, distinguindo ciência de mera rhetoric de marketing.
Resumo supervisionado por jornalista.Eletroencefalografia, biomarcadores salivares e mapeamento de atividade cerebral. Esses não são mais termos restritos a laboratórios de pesquisa médica, mas parte do processo de criação das fragrâncias que chegam às prateleiras em 2026.
A neurociência vem ocupando um espaço cada vez maior na perfumaria, influenciando desde o desenvolvimento de fragrâncias até a forma como elas são testadas e posicionadas no mercado. O movimento aparece em relatórios de tendências, pesquisas de mercado e iniciativas de grandes empresas do setor, em um momento de expansão das chamadas fragrâncias funcionais. De gigantes globais de ingredientes a marcas brasileiras, a indústria busca entender com mais profundidade como aromas podem influenciar emoções, memórias e percepções de bem-estar.
Mercado de fragrâncias deve ultrapassar US$ 20 bilhões
Os números ajudam a entender a dimensão da virada. O mercado global de fragrâncias funcionais, aquelas desenvolvidas especificamente para provocar respostas emocionais e fisiológicas mensuráveis, estava avaliado em US$ 11,38 bilhões em 2025 e deve alcançar US$ 20,48 bilhões até 2035, crescendo a um CAGR de 6,05%, segundo a Business Research Insights. Mas o que está por trás desse crescimento é mais revelador do que os números em si: 24% dos fabricantes de fragrâncias já utilizam testes biométricos para validar claims emocionais, e as vendas globais de produtos baseados em “neuroscents” cresceram 26% em 2024, de acordo com o Market Growth Reports. Trata-se de uma transição dda perfumaria como expressão estética para a perfumaria como ferramenta de regulação emocional, com eficácia comprovada em laboratório.
Esse reposicionamento responde a uma demanda do consumidor contemporâneo que não passou despercebida pelos institutos de tendências. O relatório Global Beauty and Personal Care Predictions 2026 da Mintel aponta que a próxima era do setor será marcada pela integração entre corpo, mente e tecnologia, com fragrâncias funcionais, texturas táteis e experiências multissensoriais transformando rituais de beleza em momentos de regulação emocional. O estudo The Future of Fragrance 2026, também da Mintel, reforça que o próximo ciclo de inovação estará centrado em “smellscapes” para reconectar consumidores com suas emoções, memória e bem-estar cognitivo. Só na Alemanha, 79% dos consumidores já acreditam que a fragrância pode impactar positivamente o bem-estar mental, o que dá a medida do território ainda inexplorado em mercados emergentes como o Brasil.
Neurociência aplicada ao desenvolvimento de fragrâncias
Na ponta da inovação, as grandes casas de ingredientes de fragrâncias do mundo já trabalham com dados neurológicos. A dsm-firmenich, um dos maiores players globais do setor, lançou em setembro de 2025 a emotiOn™ social connection, descrita pela empresa como uma tecnologia voltada a investir a influência de fragrâncias sobre aspectos ligados à interação social. A tecnologia faz parte do programa emotiOn™ da empresa, baseada em mais de 30 anos de pesquisas em neurociências conduzida em parceria com instituições acadêmicas líderes, incluindo o Swiss Center for Affective Sciences da Universidade de Genebra. Em dezembro de 2025, a empresa foi ainda mais longe ao lançar a coleção Cloud Dancer, uma linha de dez fragrâncias com respaldo neurocientífico inspirada na cor Pantone do ano, desenvolvida para estimular respostas emocionais específicas nos consumidores.
No mesmo movimento, a francesa MANE apresentou em maio de 2025 a plataforma WELLMOTION, desenvolvida em parceria com o Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS) e a biotech SkillCell, que mede respostas emocionais em tempo real por meio de testes fisiológicos ancorados em ciência revisada por pares e com apoio de ferramentas de inteligência artificial. A tecnologia analisa quatro biomarcadores salivares para mapear oito dimensões emocionais. Segundo a diretora de P&D da MANE, Caroline Dubourg, a combinação de métodos subjetivos, objetivos e fisiológicos baseados em neurociência permite prever as emoções que uma criação vai despertar maior capacidade de mensuração das respostas emocionais.
O que a ciência sabe sobre a relação entre aromas e emoções
Para entender o que está por trás dessas plataformas ouvimos Daiana Petry, aromaterapeuta, perfumista botânica, naturóloga e especialista em neurociência, fundadora da Harmonie Aromaterapia e autora do livro Psicoaromaterapia. Segundo ela, a base biológica desse fenômeno está bem documentada: “O olfato ocupa uma posição única entre os sentidos porque suas vias neurais possuem conexões diretas com estruturas cerebrais envolvidas no processamento emocional e na consolidação de memórias, especialmente a amígdala e o hipocampo”. É esse mecanismo que explica o chamado “efeito Proust”, quando um aroma evoca lembranças e estados emocionais com intensidade e rapidez surpreendentes. Na criação de uma fragrância, esse conhecimento pode ser aplicado de forma intencional. “Notas cítricas costumam ser associadas à disposição e bom humor, florais delicados ao conforto emocional, madeiras à estabilidade e segurança”, explica Daiana.

Sobre o investimento de gigantes como dsm-firmenich, MANE e Iberchem em plataformas de mapeamento cerebral, a especialista vê uma mudança estrutural, não um modismo. “A neurociência oferece ferramentas que permitem compreender, com muito mais precisão, como determinadas moléculas aromáticas influenciam atenção, relaxamento, percepção de conforto e bem-estar”, afirma. E destaca um ponto importante: essas tecnologias não substituem o perfumista, mas validam cientificamente um conhecimento empírico antigo. “Já existem estudos demonstrando que óleos essenciais ricos em compostos como linalol, acetato de linalila, limoneno e 1,8-cineol podem influenciar parâmetros relacionados ao relaxamento, humor, atenção e bem-estar. A tecnologia está permitindo compreender de forma mais objetiva os mecanismos que, empiricamente, perfumistas e aromaterapeutas observam há décadas”.
Quanto ao risco de a neurofragrância se tornar apenas um discurso de marketing, Daiana é categórica ao separar o que tem fundamento do que é promessa exagerada. Cita o exemplo mais estudado do mercado: “Diversas pesquisas mostram que a inalação do óleo essencial de lavanda, rico em linalol e acetato de linalila, está associada à redução da ansiedade, diminuição da frequência cardíaca e aumento de marcadores de relaxamento”. Cítricos como bergamota e laranja-doce têm sido associados à melhora do humor, enquanto aromas ricos em 1,8-cineol, como o alecrim, demonstraram efeitos positivos sobre atenção e desempenho cognitivo. Mas a especialista faz uma ressalva importante: “Existe uma diferença fundamental entre influenciar e controlar emoções. Um aroma de rosa, por exemplo, pode evocar conforto e bem-estar em uma pessoa e despertar tristeza ou nostalgia em outra, dependendo de suas experiências de vida”. Por isso, segundo ela, as neuro fragrâncias mais sérias são aquelas que falam em favorecer estados emocionais específicos e não em promessas determinísticas.
Sobre quais famílias olfativas têm o respaldo científico mais consistente, Daiana cita lavanda, néroli e ho wood (ricos em linalol) para relaxamento e ansiedade; alecrim, louro e eucalipto globulus (ricos em 1,8-cineol) para foco e desempenho cognitivo; bergamota e laranja-doce (ricos em limoneno) para bem-estar e elevação de humor. Já olíbano, copaíba e sândalo estão associados a experiências de introspecção e estabilidade emocional.
Esses movimentos não ficam restritos aos laboratórios. Eles dominaram agendas nas principais feiras do setor no último ciclo. Na Cosme Week Tokyo 2026, realizada em janeiro deste ano com 750 expositores de 23 países, fragrâncias funcionais despontaram como um dos lançamentos mais relevantes, com marcas coreanas apresentando linhas desenvolvidas especificamente para relaxar, revigorar ou regular humor e emoções, embaladas em aplicadores roll-on e ancoradas em óleos essenciais processados. O dado reforça que a neuroperfumaria já atravessou a fronteira do segmento premium e começa a se popularizar em formatos acessíveis e de uso cotidiano.
Como o Brasil entra na corrida das fragrâncias funcionais
Se no cenário global as grandes casas de ingredientes lideram a pesquisa, no Brasil a tendência também começa a aparecer entre marcas de grande consumo. Recentemente, a Natura lançou a plataforma MoodBoosters, que reposiciona a Natura Humor como uma marca de moodcare. A coleção inaugural reúne três fragrâncias funcionais – +Ânimo, +Confiança e +Vibrações -, desenvolvidas pelo Centro de Inovação no Núcleo Olfativo da Natura, liderado pela perfumista exclusiva Verônica Kato, em colaboração com especialistas em neurociência. A proposta tem como base ingredientes como copaíba e estoraque brasileiro entram nas formulações após mapeamento de respostas cerebrais, em estudo conduzido com 160 consumidoras. Os resultados do estudo indicaram que 81% relataram despertar alegria com o Humor +Ânimo, 81% sentiram mais confiança com o +Confiança e 76% afirmaram sentir boas vibrações com o +Vibrações.

A leitura de Daiana Petry reforça por que esse caminho faz sentido estratégico para o país. “O Brasil possui uma posição muito favorável. Somos uma potência mundial em biodiversidade, possuímos uma indústria de fragrâncias altamente desenvolvida e um mercado consumidor que valoriza experiências sensoriais”, afirma. Para a especialista, o país tem potencial para ir além de acompanhar a tendência global. “Vejo espaço para que o Brasil não apenas acompanhe essa tendência, mas se torne referência internacional no desenvolvimento de fragrâncias funcionais inspiradas em nossa biodiversidade e apoiadas por pesquisa científica”, desde que haja “investimento em formação interdisciplinar, integrando perfumaria, neurociência, psicologia do consumidor e ciência sensorial”.
Onde termina a ciência e começa o marketing das neurofragrâncias
Para marcas que querem entrar nesse território, Daiana traça um critério objetivo de credibilidade: “Uma neurofragrância séria não nasce a partir de uma tendência de mercado ou de uma narrativa de marketing. Ela começa com uma hipótese clara e mensurável: favorecer o relaxamento, melhorar a sensação de foco, reduzir a percepção de estresse, promover bem-estar ou apoiar estados emocionais específicos”. A partir disso, é preciso testar, validar e documentar, exatamente o que dsm-firmenich, MANE e Iberchem fazem com eletroencefalograma, variabilidade de frequência cardíaca e biomarcadores. “Quando uma marca utiliza o termo neurociência apenas como argumento de marketing, normalmente faltam justamente uma hipótese clara, critérios objetivos para a escolha dos ingredientes, metodologia de avaliação e validação dos resultados”, alerta.
Para o profissional de beleza que ainda não entendeu por que esse movimento importa, a especialista resume o momento. “Estamos passando de uma perfumaria centrada apenas na estética para uma perfumaria que também considera experiência, bem-estar, sustentabilidade e significado”. E completa: “A aromaterapia vem observando há mais de um século que determinados aromas parecem influenciar estados emocionais, comportamento e percepção de bem-estar. O que está mudando agora é que a neurociência está fornecendo ferramentas para investigar esses fenômenos de forma objetiva”.
