A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma engrenagem central na transformação do varejo. Essa foi uma das principais mensagens da palestra de Vipul Chawla, CEO do FairPrice Group, durante a NRF 2026, em Nova York. À frente de um dos maiores grupos varejistas da Ásia, Chawla apresentou uma visão prática sobre como inovação, tecnologia e propósito social podem coexistir e gerar resultados concretos.
Os insights foram acompanhados por executivos brasileiros do varejo de beleza que estiveram na NRF 2026 em uma missão internacional organizada pela Beauty Fair Co., mas o conteúdo apresentado pelo executivo vai além de setores específicos e dialoga diretamente com os desafios enfrentados por todo o varejo contemporâneo.
Um varejo que nasce social e evolui com disciplina
Fundado em 1973 como uma cooperativa tripartite, unindo governo, movimento trabalhista e iniciativa privada em Singapura, o FairPrice Group nasceu com o compromisso de manter o custo de vida acessível, garantindo que produtos essenciais chegassem ao consumidor final com preços justos.
Segundo Chawla, essa missão social nunca foi abandonada, mesmo com a evolução do grupo para um ecossistema multicanal que hoje integra lojas físicas, e-commerce, marketplace, marcas próprias, serviços de alimentação e operações financeiras. “Nosso papel é tornar o dia a dia do consumidor mais simples, acessível e sustentável”, afirmou.
Cultura de experimentação como vantagem competitiva
Um dos pontos centrais da palestra foi a construção de uma cultura de crescimento e experimentação. Embora o FairPrice sempre tenha sido reconhecido pela excelência operacional, a companhia entendeu que a velocidade das mudanças no varejo exigia um novo comportamento organizacional.
A adoção do growth mindset deu às equipes autonomia para testar novas ideias, errar rápido e aprender continuamente. Essa combinação entre execução disciplinada e liberdade para experimentar se tornou um dos principais motores de inovação do grupo.

O papel estratégico do e-commerce no P&L
Chawla também abordou, de forma direta, os impactos financeiros da digitalização. Segundo ele, o e-commerce inicialmente pressiona o P&L, mas é um investimento inevitável diante da mudança no comportamento do consumidor.
No FairPrice, o canal digital funciona como um complemento às compras físicas, enquanto o modelo de marketplace amplia o sortimento e gera ganhos de escala ao longo do tempo. A mensagem é clara: o digital não substitui o físico, mas redefine sua função.
IA para ampliar o valor humano no varejo
Ao contrário do discurso que associa inteligência artificial à redução de postos de trabalho, o FairPrice utiliza a tecnologia para valorizar as funções da linha de frente. Ferramentas de IA fornecem dados em tempo real, otimizam processos e liberam os colaboradores para atividades de maior valor agregado.
Entre os exemplos apresentados está o Roso Genie, um assistente de IA usado por gerentes de loja, e soluções de Vision AI que apoiam decisões operacionais. “A tecnologia deve tornar o trabalho no varejo mais interessante e qualificado, não eliminá-lo”, reforçou Chawla.
“Store of Tomorrow”: inovação testada no mundo real
Outro destaque da palestra foi a criação da “Store of Tomorrow”, uma loja-conceito que funciona como laboratório vivo de inovação. Diferente de projetos teóricos, o espaço foi desenhado para testar tecnologias diretamente na operação, a partir de dores reais do consumidor.
Carrinhos inteligentes, etiquetas eletrônicas de prateleira, personalização de ofertas e uso de IA para tarefas operacionais estão entre as soluções testadas. Algumas dessas inovações já mostraram resultados expressivos, como o aumento significativo do ticket médio e maior eficiência operacional.
Marca própria como estratégia de diferenciação
O FairPrice também apresentou sua estratégia de marca própria como um case à parte. Estruturada como uma empresa independente de bens de consumo, a operação de private label compete diretamente com grandes marcas e segue critérios rigorosos de qualidade e preço.
Com presença em dezenas de categorias e liderança em boa parte delas, a marca própria se tornou um pilar estratégico do grupo, reforçando a proposta de valor ao consumidor.
O que o varejo de beleza pode aprender com esse modelo
A palestra de Vipul Chawla deixa um recado claro para o varejo de beleza: inovação não está apenas em adotar novas tecnologias, mas em construir cultura, testar rápido, escalar o que funciona e manter o consumidor no centro das decisões.
Ao integrar propósito social, disciplina financeira e uso inteligente da tecnologia, o FairPrice Group mostra que é possível crescer, inovar e gerar impacto positivo, uma equação cada vez mais relevante para marcas e varejistas do setor de beleza.
