Para quem ainda tem dúvidas sobre como é possível alinhar impacto ambiental com desempenho financeiro, vale saber que a operação do Grupo Laces e dos Biomas já movimenta um sell-out próximo de 150 milhões de reais, sendo que cerca de 90% dessa receita vem de produtos biodegradáveis e de bioeconomia. Esse tipo de experiência, bem como a proposta de um novo modelo de beleza limpa e varejo sustentável estão por trás da presença do Grupo na COP30, a 30ª conferência da ONU sobre mudanças climáticas, que este ano acontece no Brasil, em Belém (PA), entre os dias 10 e 21 de novembro.
“Esta é a quarta COP consecutiva que participamos, e nesta atual levamos uma agenda completa de diálogos sobre regeneração, rastreabilidade e inovação circular. O objetivo é mostrar que a beleza pode ser uma força regenerativa para o planeta e para as pessoas”, diz Cris Dios, sócia-fundadora do Laces, que é a primeira rede de salões carbono neutro do mundo e criadora do modelo Biomas, um ecossistema de salões regenerativos licenciados presente em 20 estados brasileiros.
Ela completa: “Mais do que reduzir danos, acreditamos em regenerar: devolver à natureza e às comunidades o que elas oferecem de mais valioso. Essa é a nova beleza, feita com propósito e responsabilidade”. Concorda com ela o CEO Itamar Cechetto: “A COP30 será um marco para o Brasil, e queremos mostrar que o setor de beleza pode, e deve, ser parte dessa transformação global”.
Histórico e ganhos da sustentabilidade
As atividades verdes do Laces ocorrem desde 2014, e desde então o grupo já neutralizou mais de 6 mil toneladas de CO₂, economizou bilhões de litros de água com processos a seco e mantém 74% de mulheres em sua equipe, sendo 65% delas em cargos de liderança, além de registrar crescimento de 23% nas vendas de produtos Clean Beauty em 2025.
Ações conjuntas também fazem parte da jornada do Laces. Tanto que durante a COP, o CEO do Grupo, Itamar Cechetto, e o CEO do Grupo Soneda, Minoru Kamachi, mostraram como a parceria entre as duas empresas ampliou o alcance da sustentabilidade no varejo de beleza. A colaboração resultou no Hub de Aceleração Clean Beauty, iniciativa com apoio do Sebrae que reúne mais de 300 marcas e 18 mil produtos naturais e éticos.
Beleza que regenera
Um dos cases de destaque da COP foi o do Bioma, que propõe uma nova lógica para o setor: a conversão de salões tradicionais em ecossistemas regenerativos. “O varejo de regeneração é uma evolução natural do nosso trabalho. Queremos provar que é possível equilibrar lucro e propósito, oferecendo experiências de beleza que devolvem algo ao meio ambiente”, explica Itamar Cechetto. Os resultados alcançados são expressivos: crescimento médio de 46% nas vendas de produtos, aumento de ticket médio de R$ 160 para R$ 380 e mais de 50 toneladas de carbono neutralizadas em apenas um ano.
Finanças e sustentabilidade à parte, o Biomas tem outros impactos na sociedade, entre eles o projeto Bem Querer Mulher, em parceria com a ONU Mulheres, que já beneficiou quase 7 mil mulheres; o apoio ao Ballet Paraisópolis, com oferta de bolsas e suporte a 500 pessoas por ano, e aos povos indígenas Kamayurá, com a doação de 100 luminárias fotovoltaicas para segurança das comunidades. “Quando falamos em regenerar o planeta, também estamos falando sobre regenerar relações, oportunidades e a forma como conduzimos nossos negócios”, ressalta Cris Dios.
Expansão e futuro regenerativo
Atualmente há 57 unidades Biomas em operação, mas o objetivo é chegar a 600 até 2030, alcançando R$ 300 milhões em faturamento e consolidando um modelo de negócio sustentável, escalável e de impacto. Em paralelo, o grupo mantém a primeira fábrica orgânica certificada do Brasil, localizada em Curitiba, responsável pela produção de cosméticos com tecnologia verde e ingredientes provenientes de diferentes biomas brasileiros (da Amazônia ao Cerrado).
Com tamanha expertise e diretamente de Belém, Cris Dios e Itamar Cechetto concederam a seguinte entrevista ao portal Negócios de Beleza Beauty Fair.
Quarta COP do Laces. Como a experiência de participar desses eventos todos impactou nos negócios do Grupo?
Participar pela quarta vez de uma COP tem sido importante para validar a nossa jornada. A experiência acumulada nesses encontros nos deu uma compreensão muito clara de que as ações que implementamos dentro do Grupo, tanto no Laces quanto no Bioma, realmente geram impacto mensurável. A partir das edições anteriores, recebemos uma chancela da ONU e da RTCC (The Real Time Climate Change) de que aquilo que fazemos contribui para a agenda climática global, e isso reforça a nossa confiança para seguir investindo, pesquisando e criando parcerias alinhadas aos nossos princípios. Essa presença recorrente também influenciou diretamente o negócio. A COP se tornou um espaço onde percebemos que o que fazemos dentro dos salões e no varejo não é apenas coerente com o futuro da beleza – é necessário. Esse entendimento elevou nossa autoestima institucional e nos ajudou a acelerar decisões estratégicas, ampliar conexões e dar ainda mais profundidade ao conceito de varejo de regeneração que estamos construindo.
Vocês participaram de uma agenda de diálogos sobre regeneração, rastreabilidade e inovação circular e também falaram sobre resultados concretos de impacto ambiental e social alcançados. Pode citar alguns dentro do universo do salão de beleza e como eles impactam os ganhos do dono do salão?
Levamos para a COP30 o que sempre defendemos: prática. Existe uma cobrança muito clara hoje para que empresas apresentem resultados concretos, e não apenas discursos. No nosso caso, a operação dos Biomas e do Grupo Laces já movimenta um sell-out próximo de R$ 150 milhões, sendo que cerca de 90% dessa receita vem de produtos biodegradáveis e de bioeconomia. Isso mostra que é possível alinhar impacto ambiental com desempenho financeiro. No universo dos salões, essa mudança se reflete diretamente no ticket médio e na margem. A adoção de produtos de origem predominantemente natural cria uma relação de maior valor com o cliente, amplia a conversão em tratamentos e gera recorrência. Quando o salão adota práticas regenerativas, ele se posiciona como agente ativo na transição de um consumo convencional para um consumo consciente, e isso melhora o desempenho do negócio. Esse é um ponto essencial da nossa agenda: mostrar que regeneração é, sim, um vetor de crescimento para o setor da beleza.
O que é a “A Jornada Regenerativa do Grupo Laces”, apresentada na COP30?
A Jornada Regenerativa é o nosso modelo de evolução contínua. Ela reúne tudo aquilo que já fazemos – gestão de resíduos, rastreabilidade, redução de carbono, educação interna, curadoria de produtos e impacto territorial – e organiza isso como um caminho possível para o mercado de beleza. O objetivo é demonstrar que não existe uma solução única ou imediata; existe uma trajetória. E essa trajetória pode começar pequena, mas precisa ser verdadeira e consistente para gerar impacto social, ambiental e econômico.
Um salão que funciona no “modo convencional” e deseja ter um olhar mais sustentável para seu negócio, mas teme precisar investir muito tempo e dinheiro nas adaptações, poderia começar por onde? Pode listar ações práticas que poderiam ser tomadas facilmente e, se possível, sem grandes custos?
Existe um mito de que sustentabilidade é cara, quando muitas vezes o que encarece o setor são tecnologias que não entregam impacto equivalente ao custo. Um exemplo simples: muitas máquinas difundidas no mercado representam menos de 2% da receita anual de um salão e, mesmo assim, são tratadas como símbolo de sustentabilidade. O caminho é outro. Um salão pode começar com ajustes muito acessíveis. A primeira mudança é na escolha dos produtos, priorizando matérias-primas naturais e formulações predominantemente biodegradáveis. Também é possível trabalhar com indicadores simples – como o Índice Laces de Emissão de Carbono, que mede a média de 250 kg de CO₂ por cadeira ao ano – para criar metas e acompanhar a evolução. A sustentabilidade não exige que o salão seja especialista em todos os processos. O que importa é assumir uma agenda contínua, mesmo que isso signifique ser 1% sustentável no primeiro ano. O erro está em transformar esse 1% em discurso, e não em prática. Quando existe um compromisso real de evolução para 5, 10 ou 20 anos, aí sim começamos a falar de um negócio que caminha para ser regenerativo.
Pode contar as conquistas que vocês tiveram através da parceria do Laces com o Grupo Soneda, para ampliar o alcance de sustentabilidade no varejo de beleza; e as ações realizadas com Sebrae, mais de 300 marcas e 18 mil produtos naturais e éticos para alcançar o crescimento de 22% no ticket médio e de 16% na margem bruta?
A parceria com o Grupo Soneda foi determinante para ampliar o alcance da sustentabilidade no varejo de beleza. O maior impacto, no fim das contas, recai sobre o consumidor, que passa a ter acesso a produtos biocompatíveis, predominantemente naturais, em um ponto de venda acessível e com curadoria confiável. Antes, colocar um produto regenerativo ao lado de um produto fóssil de R$ 9,90 tornava praticamente impossível gerar conversão. Essa barreira caiu quando a Soneda organizou as gôndolas, ampliou a educação do consumidor e adotou práticas de varejo alinhadas a essa nova lógica. Hoje, a rede passou de uma loja para 25 unidades com gôndolas dedicadas a Clean Beauty. Já o trabalho com o Sebrae permitiu que mais de 300 marcas – muitas delas da Amazônia e do Pará – estruturassem seus produtos para entrar no varejo, aprendendo desde rotulagem até requisitos de distribuição. Essa soma de esforços resultou em crescimento de ticket médio e margem bruta nas lojas, mas, mais importante do que isso, gerou um modelo justo para todos os envolvidos. A Soneda adotou contratos em lógica de Fair Trade, algo raro no varejo tradicional, permitindo que marcas pequenas tivessem condições reais de participar do mercado. O conceito de varejo de regeneração se manifesta exatamente nesse ponto: toda a cadeia ganha – marcas, distribuidores, salões, varejo, consumidores e territórios. O consumo passa a gerar impacto positivo no dia seguinte, e não apenas lucro de curto prazo.
