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Home > Operação & Estratégia > Mais racional, digital e seletivo: o consumidor de beleza que está  transformando o varejo

8 minutos de leitura

Mais racional, digital e seletivo: o consumidor de beleza que está  transformando o varejo

Pesquisas de grandes institutos como NielsenIQ, McKinsey, Circana e ABEMF convergem para um mesmo perfil de comprador: mais criterioso, orientado por valor percebido e cada vez mais influenciado por experiência, curadoria e conexão com o varejo

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Por Redação em 29/05/2026 Atualizado: 29/05/2026 às 09:00
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O varejo de beleza brasileiro enfrenta um consumidor mais bem informado e exigente, que avalia custo por aplicação, avaliações e ingredientes antes de comprar, mantendo o orçamento com “indulgência seletiva” mesmo em cenários de inflação e juros altos; o mercado segue crescendo (Brasil próximo a US$ 32 bilhões até 2027, com o setor de beleza global também em expansão), mas a lógica de valor mudou, com dupes e produtos de massa ganhando percepção de equivalência ao luxo. A jornada de compra se reorganiza: varejistas multimarcas atuam como curadores que ajudam a filtrar opções, enquanto marcas fortalecem vínculo e identidade; produtos e plataformas algorítmicas antecipam intenções e recomendações substituem buscas tradicionais. O cabelo continua a categoria dominante, com o “salão em casa” ganhando força por oferecer custo por aplicação e multifuncionalidade, enquanto fragrâncias e skincare crescem sob a ótica de bem-estar, saúde e propósito. Fidelização deixa de ser apenas promoção e passa a engajar por relacionamento contínuo, cashback e gamificação; além disso, o consumidor busca marcas com diversidade, propósito e prática de beauty limpa, desconfiando de greenwashing. No conjunto, o varejo precisa integrar dados, curadoria, experiência e relacionamento entre físico e digital, já que e-commerce seguirá crescendo e lojas físicas continuam sendo o ponto de descoberta, exigindo uma estratégia omnichannel que garanta relevância, personalização e valor percebido.

Resumo supervisionado por jornalista.

Existe uma cena que se repete diariamente em perfumarias e telas de celular pelo Brasil inteiro: uma consumidora para na frente de uma gôndola e passa vários minutos comparando produtos, lendo avaliações, verificando ingredientes e calculando o custo por aplicação antes de colocar qualquer coisa no carrinho. Essa cena, que poderia parecer indecisão, é na verdade o retrato mais preciso do comportamento de quem compra beleza em 2026. O consumidor brasileiro ficou mais criterioso, mais bem informado e muito mais consciente do valor percebido em cada compra.

Essa mudança de comportamento acontece em um momento em que o mercado de beleza segue crescendo, mas sob a lógica de consumo muito diferente da observada antes da pandemia. Os dados confirmam essa percepção com números expressivos: o mercado de beleza no Brasil movimentou cerca de US$ 27 bilhões em 2024, posicionando o país entre os cinco maiores do mundo no segmento, e a previsão da ABIHPEC e da Statista é que esse número chegue a US$ 32 bilhões até 2027. Globalmente, o relatório State of Beauty 2026 da NielsenIQ, publicado em março deste ano com dados de 52 mercados e 9 categorias, registrou crescimento de 10% nas vendas de beleza em relação ao ano anterior. O mercado continua crescendo, mas a relação com o consumidor de beleza mudou estruturalmente, e entender essa transformação passou a ser a decisivo para o varejo.

Entre a cautela e o pequeno prazer

Pedro Fernandes, sócio da McKinsey & Company, tem uma frase que sintetiza com precisão o que está acontecendo com quem compra beleza no Brasil hoje: “O consumo ficou mais racional, mas não deixou de ter um lado emocional.” É nesse espaço aparentemente contraditório que o varejo de beleza opera em 2026.

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O cenário macroeconômico é conhecido: inflação persistente, juros altos, crédito mais caro e um consumidor que monitora o orçamento com mais atenção do que fazia três anos atrás. A confiança do consumidor vem sofrendo pressão, principalmente pelo aumento do custo de vida. Ainda assim, o segmento de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e perfumaria apresentou alta de 4,5% em 2025 no acumulado do ano, segundo o IBGE, sendo um dos principais motores do varejo num período de crescimento mais moderado. O brasileiro não cortou beleza do orçamento, mas reorganizou as prioridades dentro dele.

Essa reorganização tem um nome no vocabulário do setor: indulgência seletiva. O consumidor corta onde pode, mas mantém o que considera essencial para o seu bem-estar e autoestima. O fenômeno é conhecido no mercado de consumo: mesmo em períodos de pressão econômica, categorias ligadas a bem-estar e autoestima tendem a resistir melhor.

O relatório State of Fashion: Beauty 2025 da McKinsey, publicado em parceria com o Business of Fashion, identificou que 63% dos consumidores globais acreditam que produtos de massa têm desempenho equivalente ao do luxo. Essa percepção, potencializada pelas redes sociais e pela proliferação de dupes, versões semelhantes a produtos premium por um terço do preço, está redesenhando a lógica de valor no setor. A Circana identificou que 68% dos brasileiros já compraram dupes, sendo o principal motivador a questão econômica, seguido de qualidade percebida e influência das redes sociais. 

A jornada que o varejo precisa entender

Se o comportamento de compra mudou, a jornada que o conduz também. E um dado do Retail Boss referentes a janeiro deste ano é revelador o suficiente para mudar a estratégia de qualquer marca ou varejista que ainda não percebeu o que está acontecendo: Sephora, Ulta Beauty e Boots somam mais de 106 milhões de visitas mensais nos seus sites, enquanto os sites das maiores marcas de beleza do mundo somados mal chegam a 7 milhões. O varejo multimarcas é a porta de entrada digital do consumidor de beleza. Não a marca.

O que está por trás desse dado não é simplesmente a escala desses varejistas, mas a função que eles cumprem na jornada de compra. Patricia Diniz, professora do Hub de Luxo da ESPM e especialista em comportamento de consumo, explica: o consumidor de beleza está buscando não uma marca isolada, mas um ambiente que ajude a organizar a decisão de compra. Com uma oferta cada vez maior de lançamentos, promessas e estímulos vindos das redes sociais, o consumidor passou a buscar ambientes que facilitem a decisão de compra. Avaliações, rankings, best-sellers, filtros e recomendações ajudam a separar o relevante do excesso. Nesse cenário, o varejista assume um papel de curadoria, enquanto a marca aprofunda vínculo e identidade. São funções diferentes dentro da mesma jornada.

No Brasil, o quadro tem uma particularidade importante: marcas como Boticário e Natura construíram canais diretos tão sólidos, com bases de clientes fiéis, programas de fidelidade robustos e relações que vão muito além da transação, que o Boticário lidera o ranking de sites de beleza mais visitados no país (Similarweb, out/2025), seguido por Natura e Eudora. Mas mesmo aqui, o modelo de entrada multimarcas existe e é consolidado: dados da AdExperts sobre o período de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026 mostram que 83% das buscas orgânicas que chegam à Beleza na Web não são pelo nome da plataforma, mas por termos como “L’Oréal”, “Wella” e “Kérastase”. O consumidor usa o varejista especializado para pesquisar produtos de outras marcas. 

Quando o produto encontra o consumidor 

Há uma transformação ainda mais profunda acontecendo na jornada de compra, e ela tem a ver com quem dá o primeiro passo na relação entre produto e consumidor. Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, descreveu essa virada em entrevista exclusiva ao portal: se por décadas o consumidor foi treinado a buscar produtos, agora são os produtos que encontram as pessoas — muitas vezes antes mesmo de a intenção de compra estar clara. “O algoritmo, além de ser o grande vendedor, é o grande inspetor, o grande detetive, o grande psicólogo que consegue, antes de mais nada, capturar as intenções”, afirmou.

O TikTok Shop é o símbolo mais visível dessa virada, mas o fenômeno é estrutural. Plataformas como Amazon e as grandes redes sociais operam com modelos altamente preditivos e personalizados que transformam a vitrine digital em um ambiente de descoberta contínua, onde conteúdo, dados e algoritmos trabalham juntos para antecipar necessidades. O retail media, que mistura lógica de publicidade com inteligência de dados no próprio ambiente de compra, é a outra face desse movimento e tornou-se uma das principais pautas estratégicas do varejo global nos últimos três anos. No Brasil, o e-commerce de beleza e cosméticos cresceu 22% em 2025, segundo dados da Ebit Nielsen, com as redes sociais respondendo por 27% das descobertas de produtos online.

A lógica tradicional de busca começa a dividir espaço com sistemas de recomendações cada vez mais personalizados. O consumidor não vai mais ao Google digitar “melhor shampoo para cabelo cacheado”, ele recebe a recomendação no feed, no chat, no assistente de IA. Arthur Igreja é preciso na projeção: “a busca tradicional que vivemos de 1998 para cá vai certamente perder relevância” com a chegada dos agentes de IA e da IA agêntica. Para o varejo de beleza, isso significa que visibilidade algorítmica, conteúdo relevante e curadoria inteligente deixaram de ser vantagens competitivas para se tornarem requisitos básicos de existência.

O que o consumidor quer comprar

Entender o comportamento do consumidor passa também por entender o que ele está colocando no carrinho e porque. Os dados de categoria revelam um consumidor que não apenas consome mais, mas consome de forma mais consciente e com critérios cada vez mais sofisticados.

O cabelo segue sendo o coração do varejo de beleza no Brasil. A categoria cabeleira responde sozinha por 53,8% das vendas totais do canal perfumaria, segundo o Radar Scanntech de maio de 2026, uma concentração que não tem paralelo em nenhum outro segmento, já que o cuidado com a pele, por exemplo, responde por apenas 12% do faturamento do canal. Mesmo em momentos de aperto econômico, o IBGE registrou que a influência dos produtos capilares no IPCA foi de 0,86% em fevereiro de 2025, uma fatia consistente e estável do orçamento familiar que não se desfaz com crises.

O movimento que explica o dinamismo da categoria vai além dos números de mercado. O fenômeno do “salão em casa” está reconfigurando o setor: consumidores que migram dos salões para o tratamento doméstico não querem simplesmente o produto mais barato, querem o produto que funciona, que oferece bom custo por aplicação e que, de preferência, substitui múltiplas etapas da rotina. Soma-se a isso a valorização crescente das texturas naturais, com brasileiros abandonando tratamentos químicos agressivos em prol do cuidado do fio natural. O resultado é uma demanda aquecida por hidratação profunda, reconstrução capilar e produtos multifuncionais.

Nas fragrâncias, o cenário é de expansão consistente: o relatório McKinsey/Business of Fashion aponta CAGR de 8% para a categoria até 2030, o maior crescimento entre todos os segmentos de beleza, impulsionado por consumidores mais jovens e pelo nicho de fragrâncias de alto padrão. No skincare, a fronteira entre beleza e saúde segue se dissolvendo e a presença da Boots, rede britânica de farmácias, no terceiro lugar global em tráfego digital de beleza (à frente de MAC, Clinique e L’Oréal reunidas) é o dado mais eloquente dessa dissolução. O consumidor não olha mais para a beleza apenas como estética: ele associa cuidados com a pele à prevenção, à longevidade, ao bem-estar e à saúde integral.

Consumidor quer vínculo, não desconto

Fidelização deixou de ser apenas ferramenta promocional e passou a funcionar como estratégia de relacionamento contínuo no varejo de beleza. E o dado da ABEMF, a Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Fidelização é o ponto de partida para entender o tamanho do movimento: 88,3% dos brasileiros participam de algum programa de fidelidade, contra 80,9% em 2023. Um salto de quase oito pontos percentuais em menos de dois anos que não aconteceu por acaso, mas como reflexo de uma transformação profunda na forma como marcas e consumidores se relacionam.

O novo modelo que emerge em 2026 opera em uma lógica completamente diferente: presença constante na rotina do consumidor, benefício percebido de forma imediata, cashback estruturado com picos estratégicos e personalização real — não apenas o nome do cliente no e-mail, mas a compreensão profunda de frequência, ocasião, categoria e contexto de cada perfil. A gamificação também ganha força nesse processo: 45,2% dos entrevistados pelo Panorama da Fidelização 2025 da ABEMF disseram gostar de propostas de gamificação, e outros 29,2% afirmaram que a aceitação depende da marca, uma abertura expressiva do consumidor brasileiro para esse tipo de mecânica de engajamento.

Propósito, diversidade e beleza limpa

Há uma dimensão de valores que influencia as decisões de compra de forma crescente, e o varejo que ignora esse movimento paga caro pela omissão. O relatório State of Beauty 2025 da NielsenIQ é explícito: a beleza está cada vez mais conectada a identidade, bem-estar e propósito. O consumidor moderno busca marcas alinhadas a seus valores e expectativas sociais.

No Brasil, 72% dos consumidores afirmam que não deixariam de comprar produtos de beleza, mas a demanda por variedade de tons de pele e texturas de cabelo é crescente, e marcas que não atendem a essa demanda perdem relevância não apenas no discurso, mas no giro de estoque e na fidelização. Marcas como Natura e O Boticário, reconhecidas por diversidade e propósito, lideram o imaginário de “representatividade brasileira” no setor, com Natura citada por 10% dos entrevistados como a marca que melhor representa o Brasil. Esse reconhecimento não é sentimental, mas comercial. Marcas com propósito percebido criam vínculo mais duradouro e resistem melhor às pressões de preço.

O movimento da beleza limpa é outro vetor comportamental que o varejo precisa acompanhar de perto. O consumidor que adere à clean beauty não está escolhendo uma formulação, está escolhendo um estilo de vida, uma comunidade e um posicionamento. O greenwashing, que já funcionou como estratégia superficial de comunicação, não engana mais esse perfil de comprador: ele lê rótulos, pesquisa ingredientes e usa as redes sociais para checar a consistência entre o discurso e a prática das marcas. 

O que tudo isso significa para o varejo

A soma de todos esses comportamentos aponta para um consumidor que é, ao mesmo tempo, mais bem informado e mais exigente do que em qualquer outro momento da história do varejo de beleza. Ele compara antes de comprar, usa o varejista como curador e a marca como referência de desejo, é fiel quando encontra vínculo real, consome beleza como autocuidado e não apenas como estética, e está aberto a novas categorias e formatos quando eles entregam valor percebido de forma clara.

O e-commerce continuará crescendo — a NielsenIQ projeta que os canais online responderão por quase um terço das vendas globais de beleza até 2030, ante 26% em 2024. Mas o varejo físico não está morto: McKinsey aponta que os consumidores ainda preferem lojas físicas para descoberta e primeira compra, usando o digital principalmente para reposição e conveniência. Mais do que escolher entre físico e digital, o varejo de beleza passa a depender da capacidade de integrar dados, curadoria, experiência e relacionamento em uma jornada cada vez mais fragmentada e personalizada.

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