Há uma nova paixão nacional no Brasil, e não estamos falando de futebol. O mercado que conquistou os brasileiros foi o das fragrâncias, a ponto do país ser o segundo maior consumidor do mundo, de acordo com a Euromonitor – a primeira colocação é dos Estados Unidos. A classificação ganha contornos ainda mais imponentes quando se sabe que 78% da população consomem algum tipo de perfume, segundo dados de 2023 da Abihpec, que no ano passado identificou um movimento anual do setor de cerca de 16 bilhões de reais.
A potência do consumo doméstico fica ainda mais clara com o levantamento da consultoria Circana, que aponta que, após um período de crescimento acelerado do canal seletivo para o segmento de beleza, 2025 se mostra como um ano mais desafiador com categorias diminuindo seu pace de crescimento, chegando inclusive a valores negativos em certos países e categorias. No caso das fragrâncias, em geral, também se vê uma queda no ritmo de crescimento, aumentando +5% no primeiro trimestre de 2025.
Porém, há exceções: são os países latinos e de língua hispânica (América Latina + Espanha), que conseguem manter crescimentos de dois dígitos. Esse dado se alinha à penetração da categoria versus demais mercados. Na América Latina, as vendas de fragrâncias representam mais de 50% das vendas – valor bastante alinhado aos dados brasileiros. Focando em Brasil, o mercado mantém uma forte performance na categoria, crescendo +12% no primeiro semestre.
Marcas internacionais, árabes inclusive
Ao fazer um recorte para as fragrâncias estrangeiras, o levantamento da Circana aponta que existe uma correlação de performance entre marcas fashion e suas performances em perfumaria. Sendo um produto de entrada para a categoria de luxo, é comum observar uma alta na venda nos perfumes das marcas que estão em destaque no universo de moda.
Especificamente para o mercado brasileiro, essa correlação também se aplica. Além das marcas fashion, as de alto luxo também se destacam no país – esse perfil de produto ganhou espaço durante a pandemia, com as reduções das viagens internacionais e a migração do consumo para o mercado interno. Desde então, houve um aumento significativo nas marcas de nicho disponíveis em território nacional e que já representam aproximadamente 7% das vendas das grifes internacionais no país.
Ainda nessa seara, há um destaque para as marcas árabes: com um crescimento de triplo dígito, elas quadriplicaram sua importância dentro do mercado brasileiro no último ano, saltando de quatro para mais de 20 marcas em três anos. Vale lembrar que o Oriente Médio é o berço de criação de perfumes no mundo e existe, naturalmente, um leque muito diverso de produtos, que vão desde um universo massivo/dupe (com preços até R$ 80) a marcas de nicho (com valores de até R$ 2.300). Dada a relevância dos consumidores brasileiros e a alta penetração da categoria no país, o Brasil é uma das apostas das marcas árabes. A expectativa é que 2025 siga com uma ampliação das linhas disponíveis por aqui.
A força da perfumaria nacional
De acordo com a Euromonitor, a Natura está entre as cinco maiores marcas do mercado global de fragrâncias, disputando com grandes maisons internacionais. Já na América Latina, a empresa ocupa a primeira posição, se destacando por suas criações inéditas e autorais. “A Natura se mantém em um caminho de sofisticação e qualidade por combinar ingredientes sul-americanos – muitos deles criações exclusivas patenteadas – com notas olfativas já reconhecidas no mercado externo”, esclarece a CMO de Natura e Avon e head de inovação, Tatiana Ponce.
Mais uma prova de que a indústria nacional de perfumes nunca esteve tão bem representada é o atual boom de lojas e quiosques voltados exclusivamente às fragrâncias, com boa parte dos itens ali oferecidos de marcas brasileiras. Para ter ideia, um levantamento da Associação Brasileira de Shoppings Centers, a Abrasce, mostrou que de 2014 a 2024 a presença de marcas de beleza e perfumaria aumentou 52% nesses centros de compra; e, além de alimentação e serviços, o segmento que mais se destacou no ano passado foi o de beleza, em especial o de perfumaria.
O fenômeno passa pela alta do dólar, claro, mas também, e principalmente, pela alta qualidade dos produtos aqui criados a partir do acesso das empresas às melhores casas de fragrâncias do mundo, à riqueza de matérias-primas tipicamente brasileiras, do investimento em comunicação, e-commerce, pontos de vendas requintados e da sintonia afinada com as tendências internacionais. Ainda há peculiaridades: o Brasil é o país da América Latina com a maior representatividade no mercado de body splashes, diz a Circana. Seu consumo aumentou 154% de 2023 para 2024, uma onda que vem sendo surfada pelo Boticário, que teve recorde em vendas desses itens, com faturamento que cresceu 33% em 2024 e resultam em uma projeção positiva de 15% agora em 2025.
O brasileiro gostar tanto de perfume tem a ver com…
… cultura – no Brasil, a atenção aos cuidados pessoais e à higiene independem da origem e condição financeira, tanto que somos o povo que mais toma banho no mundo, segundo a Kantar Worldpanel – são 14 por semana contra 5 da média global. Não bastasse isso, o perfume é considerado uma extensão natural do banho, sua reaplicação ao longo do dia é tida como uma forma de se refrescar e se perfumar não é algo reservado apenas para ocasiões especiais.
… acessibilidade – o perfume tem se tornado acessível por uma série de fatores, entre eles o salário médio em torno de R$ 3,5 mil, o maior número de mulheres trabalhando e as marcas oferecendo alternativas de alta qualidade em diferentes faixas de preço. Some aí o fato do Brasil possuir uma das maiores redes de vendas diretas do mundo e do e-commerce e do varejo chegando às áreas mais remotas do país.
… inovação e atenção às demandas locais – a indústria nacional investe pesado em pesquisa e desenvolvimento de fragrâncias, tem acesso às melhores casas de perfumaria do mundo, compreende as preferências dos consumidores por região e incorpora práticas ecologicamente corretas e ingredientes naturais em suas fórmulas.

Triskle