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Estudo do olfato e das fases da mulher tem transformado o jeito do Boticário fazer perfumes

Cientista do Grupo esclarece como a integração entre ciência, tecnologia e criação tornou-se um pilar da estratégia da companhia.

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FigCaption Imagem: Acervo
Por Shâmia Salem em 07/12/2025 Atualizado: 08/12/2025 às 09:33
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O Boticário tem transformado seu processo de criação de perfumes por meio de estudos científicos focados nas especificidades biológicas e hormonais das mulheres, especialmente em diferentes fases da vida, como a menopausa, que afeta a percepção olfativa. O Centro de Pesquisa da Mulher e o Centro de Pesquisa do Olfato trabalham de forma integrada, permitindo um entendimento mais profundo das relações entre olfato, emoções e bem-estar, o que resulta em fragrâncias mais alinhadas às necessidades dos consumidores. Essa abordagem, que combina ciência, tecnologia e criatividade, também considera a diversidade olfativa brasileira, respeitando as particularidades regionais e emocionais, e utiliza ferramentas como o nariz digital para otimizar a criação de produtos, garantindo consistência e relevância.
Resumo supervisionado por jornalista.

Mulheres entre 50 e 69 anos apresentam uma percepção reduzida da intensidade e da durabilidade das fragrâncias, o que está diretamente relacionado às mudanças hormonais e neuroquímicas que a menopausa traz. Esse é apenas um dos achados do Centro de Pesquisa da Mulher e do Centro de Pesquisa do Olfato criados pelo Boticário – o primeiro focado em estudar as especificidades biológicas, hormonais e fisiológicas das mulheres em todas as fases da vida; e o segundo, dedicado a compreender profundamente como o olfato funciona, se relaciona com emoções, bem-estar, comportamento e percepção sensorial. Integrados, esses conhecimentos têm ajudado a tornar o processo de desenvolvimento de fragrâncias mais robusto e fundamentado e feito com que o Grupo consiga construir perfumes que dialogam com públicos muito distintos sem perder a coerência nacional da marca.

É sobre isso e muito mais que Monique Cantu, cientista do Grupo Boticário e líder técnica do Centro de Pesquisa da Mulher, falou nesta entrevista exclusiva ao portal Negócios de Beleza Beauty Fair.

Como os estudos realizados no Centro de Pesquisa do Olfato têm impactado na criação de perfumes pelo Boticário?

Nos últimos anos, o estudo do olfato transformou profundamente o modo como desenvolvemos fragrâncias. Ao aprofundarmos o comportamento da percepção olfativa em diferentes grupos e fases da vida, conseguimos entender como intensidade, durabilidade, evolução na pele e resposta emocional variam entre perfis de consumidores. Isso torna o processo de criação mais robusto e fundamentado, permitindo que as equipes trabalhem com parâmetros mais claros e com menos subjetividade, o que eleva a consistência, a performance e a relevância das fragrâncias no dia a dia das pessoas. A integração entre ciência, tecnologia e criação tornou-se um pilar da nossa estratégia.

Imagem: Divulgação

O Centro de Pesquisa do Olfato e o Centro de Pesquisa da Mulher trocam achados para o desenvolvimento de perfumes? 

Estruturamos centros de pesquisa que reúnem diferentes núcleos de estudo, cada um com um foco muito definido. O Centro de Pesquisa do Olfato é o espaço dedicado a compreender profundamente como o olfato funciona, como ele se relaciona com emoções, bem-estar, comportamento e percepção sensorial. Já o Centro de Pesquisa da Mulher tem como missão estudar, de forma inédita no país, as especificidades biológicas, hormonais e fisiológicas das mulheres em todas as fases da vida — incluindo aspectos que historicamente foram pouco pesquisados pela ciência tradicional. Esses dois centros trabalham de maneira complementar. Quando o Centro da Mulher aprofunda temas como menopausa, climatério, ciclos hormonais ou alterações neuroquímicas, ele gera insumos valiosos para entendermos como esses processos podem interferir na percepção olfativa. Foi exatamente isso que observamos no estudo recente sobre menopausa: identificamos que mulheres entre 50 e 69 anos apresentam uma percepção reduzida da intensidade e da durabilidade das fragrâncias, algo diretamente relacionado às mudanças hormonais e neuroquímicas que essa fase traz. Essa integração é mais uma ferramenta para a construção dos melhores produtos para nossos consumidores. 

Qual o significado da expressão “diversidade olfativa no Brasil”?

Quando falamos em diversidade olfativa no Brasil, não estamos nos referindo a preferências comerciais, mas a algo anterior: a formação da memória olfativa. Esse processo é profundamente influenciado por fatores ambientais, culturais, climáticos e emocionais que variam de região para região. É por isso que dizemos que o Brasil possui uma diversidade olfativa tão rica: porque somos um país plural em território, clima, cultura, biodiversidade e vivências. Isso não significa segmentar consumidores ou atribuir “preferências fixas” a regiões, mas reconhecer que diferentes repertórios sensoriais coexistem no país. Esses repertórios guiam como as pessoas se conectam com determinadas notas, intensidades ou sensações.

Para nós, essa compreensão é fundamental. Ela nos ajuda a construir fragrâncias e narrativas que dialogam com públicos muito distintos sem perder a coerência nacional da marca. E, sobretudo, reforça a importância de trabalhar com pesquisa científica e escuta ativa para que a perfumaria reflita a pluralidade real do país.

Como o conhecimento sobre essa diversidade sensorial vem sendo trabalhada pelo Boticário? 

Mesmo com um portfólio nacional, somos orientados por uma leitura regional muito consistente. Não criamos fragrâncias exclusivas para determinadas regiões, o que fazemos é usar inteligência de dados, análises  e comportamento de consumo para entender como cada território se relaciona com as famílias olfativas. Isso nos permite ajustar destaque de portfólio, narrativas de comunicação, experiência em loja, isso garante uma entrega mais alinhada ao que cada público valoriza. É uma abordagem que respeita a diversidade sem fragmentar a marca e que reforça nossa capacidade de atender um país plural mantendo a coerência nacional da perfumaria.

Imagem: Divulgação

O Boticário também tem usado a neurociência para ajudar a entender o consumidor, e não só em relação ao cheiro do perfume (gosto e emoções), mas sobre a escolha das embalagens, fragrâncias, texturas e tudo o mais que envolve a criação do produto. Como isso é feito?

A neurociência nos permite compreender como o cérebro integra diferentes estímulos sensoriais, trazendo respostas que o consumidor não consegue verbalizar, e isso tem se tornado essencial para a criação de produtos pelo viés da inovação. Hoje avaliamos não só a reação ao cheiro, mas também como textura, cor, brilho, temperatura, formato do frasco e até o ritual de aplicação influenciam a interpretação e o impacto final da experiência. Os estudos conduzidos pelo Centro de Pesquisa da Mulher mostram, por exemplo, como alterações hormonais impactam humor, ansiedade e sono, e como isso muda a forma como o corpo responde a estímulos, inclusive olfativos. Esse conhecimento permite desenvolver fragrâncias e produtos que dialogam com necessidades emocionais reais, respeitando as fases de vida e os contextos de cada consumidora. A neurociência nos dá profundidade e, principalmente, relevância. A neurociência nos permite trazer respostas que o consumidor não consegue verbalizar, por isso consegue trazer de uma forma inovadora,  uma compreensão mais profunda do impacto real do produto no consumidor.

Como o Boticário usa o nariz digital? Ele permite “dispensar” ou poupar o perfumista em alguma fase do trabalho, acelerar análises e testes?

O nariz digital se tornou uma ferramenta estratégica porque traz precisão e velocidade para etapas que antes dependiam exclusivamente de análises manuais e mais demoradas. Ele traduz características olfativas em dados, permitindo comparar matérias-primas, medir variações e acompanhar a evolução de uma construção com muito mais rigor técnico. Essa leitura objetiva é especialmente útil nas fases iniciais do desenvolvimento, quando estamos avaliando caminhos olfativos, e, também, nas etapas de estabilidade e consistência, garantindo que o que foi criado se mantenha fiel ao conceito original ao longo da produção. Mas, embora essa tecnologia traga eficiência e segurança, ela não substitui o papel do perfumista, pelo contrário, amplia seu alcance. O perfumista continua sendo o centro criativo do processo, responsável por interpretar nuances, construir narrativas olfativas e transformar dados em emoção. O nariz digital atua como suporte técnico para que esse olhar humano possa ir mais longe, reduzindo ruídos, acelerando validações e liberando tempo para aquilo que nenhum equipamento é capaz de substituir: sensibilidade, repertório e a leitura subjetiva que transforma uma fórmula em uma fragrância com identidade. 

Poderia contar alguns dos melhores achados do Centro de Pesquisa do Olfato?

Um dos avanços mais importantes está na compreensão cada vez mais profunda de como fatores fisiológicos e hormonais influenciam a maneira como percebemos fragrâncias. O estudo conduzido em parceria com o Centro de Pesquisa da Mulher trouxe um marco importante ao demonstrar, de maneira clínica e mensurável, que mulheres em climatério e menopausa percebem menor intensidade, menor durabilidade e menor fixação das fragrâncias em comparação às mais jovens.

Outro estudo também aprofundou a relação entre alterações hormonais, regulação de neurotransmissores e impacto sobre o bem-estar, o humor e o sono. Ao evidenciar que variações em substâncias como serotonina, GABA e dopamina afetam não apenas o estado emocional, mas também a maneira como o estímulo olfativo é interpretado pelo cérebro, ampliamos a compreensão de que o olfato não é um sentido isolado, mas uma porta de entrada para dimensões emocionais da vida cotidiana.

Outra frente importante é o acúmulo de conhecimento técnico sobre como intensidade, evolução e percepção mudam ao longo das fases da vida — algo que até então não era tratado de forma científica pela indústria. Essa visão integrada permite calibrar formulações, melhorar protocolos de avaliação sensorial e refinar padrões de entrega, sempre com o consumidor real no centro. Ao mesmo tempo, o trabalho contínuo com ferramentas tecnológicas, como o nariz digital, fortalece a capacidade de registrar e analisar esses comportamentos com mais precisão, criando um acervo técnico que sustenta decisões de desenvolvimento e consistência. No conjunto, esses achados elevam o debate sobre perfumaria no Brasil para um lugar onde ciência, fisiologia e experiência se encontram.

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