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7 minutos de leitura

Reciclagem ganha espaço como estratégia para levar consumidor de volta à loja

No Dia Mundial do Ambiente, redes de beleza multimarcas mostram como programas de logística reversa estão transformando embalagens vazias em oportunidades de relacionamento, recorrência e vendas nas lojas físicas

7 minutos de leitura

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Por Redação em 05/06/2026 Atualizado: 05/06/2026 às 09:00
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A reciclagem de embalagens vazias emerge como estratégia de fidelização e retorno ao ponto de venda no varejo de beleza: ao instalar pontos de coleta, lojas criam visitas recorrentes que vão além da reposição de produtos, como demonstram os 1,3 tonelada coletadas pela Soneda com a Reciclo Beleza em 2025, com rastreabilidade via DinDin Verde e Rede de Reciclagem Empreendedora que envolve cooperativas, além de casos globais da Pact Collective (Sephora, Credo, L’Oréal, MECCA e outras) que apontam forte impacto no comportamento de compra, já que mais da metade dos consumidores que descartam acabam adquirindo produtos na mesma visita; esse ecossistema envolve também ações de atuação no PDV, como cashback, promoções “traga e ganhe” e ranking de reciclagem, além de métricas de conversão, frequência de retorno e novos cadastros para medir o retorno da logística reversa, consolidando a sustentabilidade como vantagem competitiva e elemento de conexão entre consumidor, marca e loja.

Resumo supervisionado por jornalista.

Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, a reciclagem ganha evidência como pauta ambiental. No varejo de beleza, porém, ela também começa a conquistar relevância por outro motivo: sua capacidade de gerar fluxo para as lojas físicas. O movimento ganha força em um momento em que o setor busca novas formas de fortalecer o relacionamento com o consumidor e criar razões para que ele volte ao ponto de venda. Mais do que um local de compra, a loja física passou a ser vista como espaço de experiência, descoberta e conexão com a marca. Nesse cenário, uma iniciativa que nasceu da agenda ambiental começa a revelar seu potencial de negócio. Os programas de descarte responsável de embalagens vazias estão se tornando um dos instrumentos mais eficientes de fidelização, aumento de frequência e conversão no varejo especializado de beleza.

Quando uma perfumaria ou loja de cosméticos instala um ponto de coleta de embalagens, ela cria um motivo recorrente de visita que vai além da necessidade imediata de reposição do produto. 

Como a Soneda transformou descarte em visita à loja

A Soneda A Casa da Beleza, rede paulista com cerca de 50 lojas em 22 cidades e 30% do market share de perfumarias auditadas no Estado de São Paulo, fechou 2025 com um marco concreto em logística reversa: em parceria com a Reciclo Beleza, startup especializada em soluções de descarte para a indústria cosmética, a rede coletou mais de 9 mil embalagens pós-consumo de produtos de beleza, perfumaria e bem-estar. No total, foram aproximadamente 1,3 tonelada de resíduos destinados corretamente a partir de apenas três pontos de coleta instalados em lojas da Avenida Paulista e da Rua Augusta, na capital, e no Shopping Iguatemi, em Campinas.

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E o que acontece depois do descarte é tão relevante quanto o volume coletado: todas as embalagens passam pela rastreabilidade da DinDin Verde – Gestão de Embalagens Inteligentes, em parceria com a Reciclo Beleza, e são encaminhadas para reciclagem por meio da Rede de Reciclagem Empreendedora, fortalecendo cooperativas e associações de catadores. Os resíduos chegam a 11 cooperativas parceiras locais e outras 22 espalhadas pelo Brasil, o que transforma o gesto do consumidor no PDV em uma cadeia de impacto social real e rastreável.

“Seguimos firmes na missão de transformar consumo em consciência e impacto positivo em ação. A parceria com a Reciclo Beleza reforça nosso papel como agente ativo na construção de um futuro mais sustentável”, afirma Minoru Kamachi, CEO da Soneda A Casa da Beleza. 

Um homem de camisa polo preta está de braços cruzados em um pátio externo com assentos de paletes de madeira, plantas, flores e grandes guarda-chuvas. Os prédios são visíveis ao fundo.
Minoru Kamachi | Foto: divulgação

Estima-se que apenas entre 5% e 20% dos resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil sejam reciclados. No setor de beleza e cosméticos, um dos maiores mercados do mundo, esse cenário se traduz em um volume expressivo de embalagens plásticas, metálicas e de vidro que terminam em aterros.

Quando a reciclagem vira estratégia de fidelização

A peça central dessa equação global é a Pact Collective, organização sem fins lucrativos americana especializada em reciclar embalagens de beleza de difícil processamento convencional. Fundada em 2021 por Credo Beauty (maior rede varejista dos EUA de clean beauty ) e MOB Beauty (marca canadense de maquiagem com foco em embalagens reutilizáveis, recarregáveis e desenhadas para reduzir resíduos), a Pact opera hoje com coletores em mais de 3.300 lojas nos Estados Unidos, em redes como Sephora, Ulta Beauty, Credo, Nordstrom e L’Occitane.

No último relatório de impacto anual da Pact, o volume de embalagens coletadas de consumidores chegou a 62,9 toneladas, um crescimento de quase 2,6 vezes em relação ao ano anterior. O número de pessoas que utilizaram os coletores saltou de 210.266 para 545.912 participantes, resultado que a organização atribui a treinamentos com equipes de loja, pesquisas de feedback, sinalização interna e atuação nas redes sociais. E existe um dado que deveria constar no planejamento estratégico de todo varejista de beleza: segundo a Pact, mais da metade dos consumidores que vão até a loja para fazer o descarte realizam uma compra naquela mesma visita. 

A pesquisa acadêmica reforça esse comportamento: um estudo conduzido por Remi Trudel, professor de marketing da Universidade de Boston, mostrou que clientes familiarizados com programas de logística reversa de um fabricante gastam cerca de 5% a mais com aquela marca e esse crescimento sobe para quase 6% na segunda visita e 9% na terceira. 

A Credo Beauty tem avançado nessa direção. Desde 2021, seu programa de reciclagem em parceria com a Pact impediu que o equivalente a 1,1 milhão de tubos de batons acabassem em aterros sanitários. O dado é impactante porque evidencia uma escala que vai muito além do simbolismo: essa é logística reversa operando em volume industrial dentro de um varejista especializado. A Credo foi também a primeira empresa a usar o NewMatter, linha de produtos circulares da Pact feita a partir de embalagens coletadas. 

A Sephora tem os números mais públicos do setor. Em novembro de 2025, a rede comemorou a marca de mais de 45 toneladas de embalagens coletadas por meio do seu programa Beauty (Re)Purposed, lançado em 2023 em parceria com a Pact Collective em todas as lojas independentes da América do Norte – isso é o equivalente a cerca de 6 mil carrinhos de supermercado cheios de embalagens vazias desviadas dos aterros. O programa aceita embalagens de qualquer marca, não apenas as vendidas pela Sephora, e os materiais coletados são encaminhados para se tornarem tapetes, paletes, asfalto ou novas embalagens. 

Uma pessoa coloca um frasco vazio de produto de beleza em uma lixeira de reciclagem da Sephora com o rótulo Give your BEAUTY EMPTIES a second life (Dê uma segunda vida aos seus VAZIOS DE BELEZA). A lixeira tem categorias para a reciclagem de diferentes tipos de recipientes vazios de produtos de beleza.
Foto: divulgação

Já a MECCA, principal rede de beleza especializada da Austrália e Nova Zelândia, tem talvez o exemplo mais sofisticado em termos de design de programa. Em parceria com a TerraCycle, a rede já está em seu quinto ano de operação e acumulou mais de um milhão de embalagens desviadas de aterros sanitários, incluindo, desde 2024, itens especialmente difíceis de reciclar como frascos de perfume, miniaturas e embalagens de vidro complexas. O detalhe que faz a diferença no PDV: a MECCA desenvolveu, junto à TerraCycle, os próprios coletores utilizando resíduos recuperados pelo programa — o lixo coletado se transformou na infraestrutura de coleta. Os coletores, visualmente marcantes e reconhecíveis em todas as lojas, funcionam como elemento de identidade da marca no ponto de venda e comunicam o compromisso da rede com cada consumidor que entra.

O movimento não é exclusivo do varejo independente. O Grupo Boticário mantém o Boti Recicla, programa de coleta de embalagens vazias das marcas do grupo com mais de 4 mil postos de coleta voltados ao consumidor engajado com a causa ambiental. A L’Oréal também avança com força no tema, com iniciativas globais que envolvem desde embalagens recicláveis e refis até programas de coleta pós-uso em pontos de venda parceiros. No Brasil, a companhia tem expandido o portfólio de embalagens sustentáveis em marcas como Kérastase, L’Oréal Professionnel e Redken.

A agenda ambiental encontra o resultado financeiro

Não é coincidência que a sustentabilidade tenha ocupado lugar de destaque no São Paulo Innovation Week 2026, um dos maiores festivais de tecnologia, inovação e empreendedorismo do país, encerrado em 15 de maio em São Paulo. A trilha Green Future reuniu executivos, especialistas e representantes do setor público para debater a transição climática, economia circular como estratégia industrial e sustentabilidade como vantagem competitiva. A circularidade foi discutida como alavanca de produtividade, tecnologia e cadeia de valor, deixando claro que o tema saiu do relatório de ESG e entrou definitivamente no centro da estratégia de negócio. 

Refil, logística reversa, embalagens recicláveis, rastreabilidade de origem e consumidor consciente são temas que transitam entre a pauta ambiental e a pauta comercial. Quando uma marca lança um refil, ela cria um motivo de recompra no canal especializado. Quando uma perfumaria instala um ponto de coleta, ela gera tráfego previsível e recorrente.

Ativações que transformam descarte em consumo

O ponto de coleta dentro da loja é o ponto de partida, mas o varejo que quiser extrair o máximo desse fluxo precisa criar mecanismos de conversão. Algumas ativações que já estão sendo testadas no mercado e que podem ser incorporadas por perfumarias de todos os portes incluem:

Cashback vinculado ao descarte: o consumidor que leva embalagens vazias para o ponto de coleta recebe crédito em carteira digital ou desconto na próxima compra. O mecanismo fecha o ciclo entre ação sustentável e comportamento de consumo, além de alimentar o CRM da loja com dados de visita e propensão de compra. 

Campanha “traga e ganhe”: promoção periódica em que o descarte de determinada quantidade de embalagens gera um brinde, amostra de lançamento ou desconto em categoria específica. Funciona especialmente bem quando associada a uma marca parceira que queira ativar o canal físico com uma experiência diferenciada.

Ranking gamificado de reciclagem: programa de pontuação em que cada descarte equivale a pontos acumulados em um ranking de clientes. O lojista pode exibir o painel de líderes na loja física ou no WhatsApp da base, criando engajamento contínuo, senso de comunidade e motivo de retorno recorrente. 

Como medir o retorno da logística reversa

Para além das ativações, o varejista que deseja mensurar o impacto real desses programas no seu negócio pode utilizar três métricas:

  • A taxa de conversão em compra após o descarte mede quantos dos consumidores que entram na loja para descartar embalagens terminam comprando algo naquela visita. Lojas que criam uma jornada ativa tendem a converter significativamente mais do que aquelas que limitam o ponto de coleta a um canto discreto da loja. O benchmark internacional, segundo a Pact, é que mais da metade dos visitantes que descartam acabam comprando.
  • A frequência de retorno é outro indicador crítico: consumidores engajados em programas de reciclagem tendem a visitar a loja com maior regularidade, já que o acúmulo de embalagens em casa funciona como gatilho natural de visita. Comparar o intervalo médio entre visitas do cliente que participa do programa com o do cliente que não participa é o caminho para provar o valor do ponto de coleta como ativo de negócio.
  • Por fim, o volume de novos cadastros gerados a partir do programa mostra se o descarte está trazendo consumidores que ainda não faziam parte da base da loja, o que transforma o programa ambiental em ferramenta de aquisição de clientes.

Sustentabilidade vira vantagem competitiva

O mercado de beleza brasileiro está no meio de uma transição que vai muito além do produto sustentável. O consumidor não quer apenas comprar de uma marca que diz se preocupar com o planeta. Ele quer fazer parte de um ecossistema em que seu comportamento tem impacto, e quer ser reconhecido por isso.

O ponto de coleta na perfumaria é, nesse contexto, muito mais do que uma lixeira inteligente: é um convite para uma relação mais profunda entre consumidor, varejo e marca. A Soneda provou em 2025 que é possível, com três pontos de coleta bem posicionados, gerar mais de 9 mil interações físicas qualificadas que não existiriam de outra forma. O varejo global prova, com dados crescentes, que essas interações convertem. Resta ao setor construir a infraestrutura, os incentivos e as métricas que vão transformar esse movimento em estratégia permanente de crescimento.

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