O varejo de beleza tem enfrentado um desafio com as fast trends, tendências rápidas que surgem e desaparecem em questão de dias, impulsionadas por redes sociais e um desejo crescente por novidades. Para se manter competitivo, lojas de cosméticos precisam responder rapidamente a essas demandas, ajustando seus estoques e utilizando tecnologia para integrar dados de vendas em tempo real. Valéria Ferraz, fundadora da Bella Ferraz, e Elói Assis, da TOTVS, destacam a importância de uma estratégia de estoque flexível, que inclua lotes de teste e uma gestão eficiente, além da necessidade de cautela para evitar problemas de estoque com produtos efêmeros. A conexão com as gerações mais jovens e a experiência de compra no varejo físico são fundamentais para o sucesso nesse cenário dinâmico.
Resumo supervisionado por jornalista.O varejo de beleza tem vivido um fenômeno similar ao do universo da moda: o das fast trends. Diferentemente dos grandes movimentos comportamentais que duravam anos, essas tendências rápidas surgem, viralizam e desaparecem em semanas – ou até dias. Impulsionadas por redes sociais como TikTok e Instagram, por lançamentos constantes de produtos e pelo desejo do consumidor por novidade e pertencimento imediatos, essas ondas curtas desafiam a lógica de planejamento.
Nesse cenário, um dos setores mais pressionados a responder com agilidade é o das lojas de cosméticos e perfumaria.
“As tendências rápidas movimentam muito o nosso negócio, e equilibrar o estoque com essa demanda de lançamentos é realmente um grande desafio”, afirma Valéria Ferraz, fundadora da Bella Ferraz, rede de perfumaria com mais de 30 lojas no Rio de Janeiro
Surfar a onda das trends no momento exato em que elas ganham força e atingem o pico de popularidade faz diferença para o varejista. Além de demonstrar sintonia com a demanda do consumidor, a agilidade também funciona como um diferencial competitivo diante da concorrência.
As gerações Z e Alpha – atentas e engajadas com o consumo de beleza – se conectam facilmente a lojas que disponibilizam essas tendências, justamente por enxergá-las como lugares que “falam a sua língua”. Essa conexão impacta diretamente na construção da imagem do varejista e do selo sob o qual o produto é vendido. “O peso não está apenas no volume de vendas de um item, mas no valor intangível que ele agrega à percepção da sua marca e no relacionamento que constrói com o consumidor do futuro”, argumenta Elói Assis, diretor-executivo de produtos para varejo da TOTVS.

Movimento começa no digital
Segundo Valéria Ferraz, a categoria de maquiagem é uma das que mais movimentam o nicho das fast trends: “Hoje, as clientes querem participar, pertencer e estar atualizadas”, conta.
A jornada do consumidor de beleza é impulsionada pelas redes sociais e pelos marketplaces, que atuam como fatores decisivos para a escolha do produto. A experiência de fato, no entanto, acontece no varejo físico – é lá que o cliente valida, testa e se conecta com o item.
Partindo desse ponto, a tecnologia se torna a espinha dorsal da estratégia do varejista para se inserir no contexto das tendências rápidas. De olho nessas mudanças, a recomendação é que o lojista trabalhe com um estoque de teste: lotes pequenos que funcionam como termômetro do mercado.
“O segredo está na integração: o dado de venda no PDV precisa alimentar o sistema de gestão (ERP) em tempo real. Se o sistema sinalizar que o lote de teste esgotou em horas, a decisão de recompra é imediata. No setor de beleza, onde a fidelidade do cliente é alta, mas a paciência é curta, evitar a ruptura (falta do produto) no auge do hype é o que define quem ganha o mercado” – Elói Assis, diretor-executivo de produtos para varejo da TOTVS

Previsibilidade e cautela
Valéria Ferraz, curadoria, estratégia e alinhamento são fatores determinantes para o sucesso de uma fast trend nas prateleiras das perfumarias. Trabalhar em conjunto com a indústria, segundo ela, garante uma entrada controlada destes produtos nas lojas antes que eles escalem em níveis de consumo.
“Tendência precisa de estrutura, negociação e acompanhamento, senão deixa de ser oportunidade e vira problema de estoque” – Valéria Ferraz, fundadora da rede de perfumaria Bella Ferraz.
A executiva ressalta, no entanto, que mesmo as fast trends tendo muito potencial e representando um aumento do ticket médio, é importante entendê-las como um acontecimento efêmero. Elas quase sempre terminam da maneira que começaram: rápido.
Sob esse ponto de vista, Valéria defende que a loja deve seguir dispondo de seu estoque regular. “É preciso ter sensibilidade de mercado para não deixar de comprar o que realmente gira por conta de uma tendência passageira”.
O que funciona de dentro das lojas
Uma gestão de estoque eficiente visa o equilíbrio entre a redução de custos, capital de giro e a disponibilidade de produtos. No entanto, quando o assunto são as fast trends, o modelo tradicional de previsão baseado em dados perde eficiência, já que essas tendências, por sua própria essência, ignoram fatores importantes para a mensuração, como o histórico de vendas.
O tempo ideal para um varejista disponibilizar uma tendência rápida é o mais curto que a sua operação permitir: “O ideal é que esse ciclo seja medido em dias, e não em semanas”, afirma Elói Assis. “Uma tendência viral atinge seu pico de interesse muito rapidamente; se um varejista levar um mês para colocar o produto na prateleira, é muito provável que a onda já tenha passado e a oportunidade seja perdida”.
A velocidade de duração desses movimentos na prateleira é alta. Lojistas afirmam que os picos geralmente ocorrem em até três meses, variando conforme a força do produto e sua distribuição.
Para Valéria Ferraz, quando todos os processos estão bem alinhados às tendências, o giro de estoque se renova de maneira acelerada e benéfica para o negócio. A executiva também destaca a importância da disciplina do varejista e da parceria com a indústria para o sucesso dessa estratégia: “No varejo, não é quem entra primeiro que ganha, é quem sustenta melhor o resultado”, conclui.
