Durante a NRF 2026, em Nova York, evento que contou com a presença de uma delegação brasileira de cerca de 100 executivos do varejo de beleza liderada pela Beauty Fair Co., uma das palestras mais emblemáticas do congresso mostrou que inovação não é sinônimo de ruptura com o passado, mas de aprofundamento do propósito. No palco, a Polo Ralph Lauren revelou como uma marca com 60 anos de história vem utilizando inteligência artificial para manter sua essência viva, relevante e desejável para novas gerações de consumidores.
Mais do que apresentar uma solução tecnológica, a apresentação trouxe uma reflexão estratégica sobre como legado, design atemporal e tecnologia podem coexistir, e se fortalecer, no varejo contemporâneo.
Design atemporal como ponto de partida da inovação
Desde sua fundação, a Ralph Lauren construiu sua identidade com base em produtos pensados para durar, melhorar com o tempo e atravessar gerações. A marca sempre defendeu a ideia de criar não apenas roupas, mas um estilo de vida, uma narrativa e uma relação emocional com o consumidor.
Esse compromisso com a atemporalidade nunca foi um freio à inovação. Pelo contrário. Foi justamente essa visão de longo prazo que permitiu à marca expandir seu portfólio, do vestuário masculino ao feminino, passando por artigos para casa e linha infantil, sem perder coerência de marca.
Quando o luxo chegou primeiro ao digital
Há cerca de 25 anos, a Ralph Lauren tomou uma decisão que, à época, parecia improvável: tornar-se a primeira marca de moda de luxo a vender online. Em um contexto de forte resistência à ideia de comercializar produtos de alto valor no ambiente digital, a iniciativa exigiu mais do que tecnologia, exigiu visão.
O desafio não era apenas vender, mas traduzir para o e-commerce a experiência sensorial e narrativa das lojas físicas icônicas da marca. A solução foi unir marketing e comércio de forma indissociável, transformando o digital em um espaço de storytelling e relacionamento, e não apenas de transação.
Uma parceria estratégica que atravessa décadas
Foi nesse contexto que nasceu a parceria entre Ralph Lauren e Microsoft, hoje com 25 anos de duração. Mais do que um acordo tecnológico, a colaboração se consolidou como uma relação de cocriação estratégica.
A Microsoft passou a atuar como viabilizadora da visão da marca, fornecendo infraestrutura e soluções como Azure AI e Copilot Studio. Para isso, as equipes de tecnologia mergulharam profundamente na cultura da Ralph Lauren, visitando lojas, entendendo o nível de personalização oferecido pelos vendedores e absorvendo o DNA da marca.
O resultado foi uma abordagem de inovação centrada na experiência do cliente, e não apenas em métricas de eficiência.
“AskRalph”: IA como extensão da experiência humana
O grande destaque da palestra foi o AskRalph, uma ferramenta de inteligência artificial conversacional criada para traduzir a filosofia da marca em interações digitais personalizadas.
A solução permite que o consumidor receba sugestões de estilo baseadas em contexto, como eventos específicos, verifique disponibilidade de produtos em tempo real e construa looks completos com mais segurança e confiança.
Longe de substituir o vendedor, o AskRalph atua como um complemento da experiência humana, oferecendo fluidez entre canais e consistência na jornada. Um dos exemplos compartilhados no palco foi emblemático: um cliente que, pela primeira vez, comprou um presente sem precisar trocá-lo, reflexo direto da assertividade proporcionada pela IA.
Impacto real no negócio e na cultura interna
Os números reforçam a relevância da estratégia. No último período de festas, a Ralph Lauren registrou cerca de US$ 2 bilhões em vendas influenciadas por inteligência artificial, além de um crescimento de 700% nas buscas e interações impulsionadas por IA.
Internamente, o projeto também transformou a dinâmica organizacional. Iniciado há dois anos, antes mesmo do boom da IA generativa, o AskRalph uniu designers, times de tecnologia e equipes comerciais em torno de um objetivo comum, fomentando uma cultura mais colaborativa e experimental.
O que o varejo pode aprender com esse modelo
A palestra deixou lições claras para marcas de todos os setores, inclusive o varejo de beleza:
- Tecnologia é meio, não fim: a IA deve servir ao propósito da marca e à experiência do cliente.
- Dados são ativos estratégicos: a qualidade das informações define o impacto real da IA.
- Cultura importa tanto quanto a ferramenta: inovação exige colaboração entre áreas.
- Parcerias precisam de alinhamento de visão: escolher fornecedores que entendam o negócio é tão importante quanto escolher a tecnologia.
- IA responsável é inegociável: princípios éticos e transparência devem acompanhar a evolução tecnológica.
Ao final, a mensagem foi clara: marcas que desejam permanecer relevantes não precisam abandonar seu legado, precisam traduzi-lo para o presente. E, quando bem aplicada, a inteligência artificial pode ser uma poderosa aliada nessa construção.

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