A inteligência artificial não é o futuro. É o presente. E para o varejo de perfumaria, o prazo para se adaptar a ela é curto: de três a cinco anos. Foi o que alertou o palestrante Arthur Igreja durante sua apresentação “Inteligência artificial no seu negócio: impactos nos negócios e no Varejo”, realizada no Líderes de Perfumaria, evento promovido pelo Grupo Beauty Fair Co. que reúne mais de 90 varejistas de todo o Brasil em Campinas (SP) e segue até o próximo dia 19 de abril.
Diante de uma plateia composta por lojistas, gestores e executivos do setor de beleza, Igreja entregou uma mensagem direta: usar IA em 2026 é obrigatório. Daqui a dez anos, não será mais diferencial, será apenas condição de sobrevivência.
“O mundo de 1994 é um mundo muito mais parecido com a Idade Média do que com o de 2006”, disse o especialista em inovação e tecnologia, traçando um paralelo com a chegada da internet, que redefiniu completamente a sociedade em poucos anos. Para ele, a IA é a terceira grande tecnologia habilitadora da história – depois da internet (1995) e do smartphone (2007). “Existe um mundo antes e um mundo depois de cada uma delas”.
Produtividade interna: o primeiro impacto para o lojista

A principal mensagem de Arthur Igreja para os varejistas de perfumaria foi clara: o impacto mais imediato da IA não está nas atividades-fim do negócio, como vender produtos ou atender clientes, mas nas atividades de suporte: administrativas, gerenciais e operacionais.
Estudos do MIT (Massachusetts Institute of Technology) citados pelo palestrante mostram que tarefas que levavam 80 minutos passam a ser concluídas em 25 minutos com o uso de IA. Empresas que não adotam a ferramenta, segundo ele, serão silenciosamente penalizadas na margem por concorrentes mais eficientes. “A penalização das empresas que usam pouco IA é silenciosa: não aparece no produto final, mas na estrutura de custos e margens do concorrente.”
Para o varejista de perfumaria, isso significa que atividades como controle de estoque, análise de sell-out, planejamento de compras, emissão de notas fiscais, relatórios de desempenho e até a preparação de campanhas de comunicação podem ser drasticamente otimizadas com IA.
Agentes de IA vão comprar em nome do consumidor
Se o ganho de produtividade interna é o impacto imediato, a transformação da jornada de compra é o que vai redefinir o varejo nos próximos anos. Arthur Igreja apresentou ao público uma evolução inevitável: sites → comparadores de preços → marketplaces → agentes de IA compradores. “Daqui a 3 ou 5 anos é que vai acontecer essa transformação gigantesca; e é por isso que é tão importante começar a ter intimidade com ela agora, na sua empresa”, reforçou.
Os chamados agentes de IA são fundamentalmente diferentes do ChatGPT. Enquanto o ChatGPT responde a comandos pontuais, comparável a uma “furadeira que se liga, usa e desliga”, os agentes assumem tarefas completas de ponta a ponta: comunicam-se, negociam, contratam serviços e realizam pagamentos de forma autônoma.
O palestrante revelou que o CEO da Visa declarou recentemente que a principal aposta da empresa é uma plataforma onde agentes de IA farão compras em nome dos consumidores. A primeira transação agente-agente entre Visa e Banco do Brasil já foi realizada.
Para o varejo de perfumaria, o impacto é profundo: produtos utilitários, de reposição ou de baixo envolvimento emocional tendem a ser comprados inteiramente por agentes. Já o varejo físico, segundo Igreja, continuará sendo uma fortaleza para categorias de indulgência, presentes, luxo e bem-estar, justamente onde a perfumaria se destaca.
O risco do “efeito Waze” e o valor do repertório humano
Nem tudo são vantagens. Arthur Igreja alertou os varejistas sobre um risco cognitivo real: o “efeito Waze”. Assim como o GPS eliminou a necessidade de memorizar rotas, a IA pode eliminar a capacidade de avaliar criticamente os resultados que ela própria gera. “Os maiores beneficiados pela IA são as pessoas que viveram e aprenderam as coisas sem IA — é bizarro isso”, afirmou.
Profissionais que delegam tarefas inteiramente à IA perdem a capacidade de avaliar a qualidade e a correção dos resultados. Sem conhecimento de base, não é possível saber se a análise da IA está certa ou errada. “O repertório vai ser a última barreira humana — vai ser ainda mais importante na era da IA.”
Para o lojista de perfumaria, isso significa que o conhecimento sobre o próprio negócio(sobre comportamento do consumidor, produtos, ponto de venda) continua sendo insubstituível. A IA acelera, otimiza e sugere. Quem assina e se responsabiliza pelo resultado é o profissional.
Dados sem uso não valem nada

Outro ponto central da palestra foi o papel dos dados. Arthur Igreja destacou que o uso de dados nas empresas cresceu 100 vezes desde o advento da IA generativa em 2022. No entanto, apenas 7% das empresas utilizam ferramentas de IA no topo do seu potencial, segundo estudo da McKinsey.
Para o varejista de perfumaria que já acumula informações de sell-out, ticket médio, giro de produtos e comportamento de compra, a IA é a ferramenta que transforma esse volume bruto em insights acionáveis. É possível, por exemplo, perguntar aos dados: onde estou perdendo produtividade? Quais produtos estão abaixo do potencial? Onde há ineficiências no PDV?
O que o varejista de perfumaria precisa fazer agora
Arthur Igreja deixou orientações práticas para os mais de 90 varejistas presentes no evento:
1. Comece pelas atividades de suporte, como processos administrativos, gerenciais e operacionais, antes de tentar aplicar IA nas atividades-fim. É aí que o ganho de produtividade é imediato e mensurável.
2. Não abandone o aprendizado de base. Use a IA para ampliar o repertório, não para substituí-lo.
3. Mapeie quais serviços ou entregas do seu negócio podem ter valor zerado pela IA nos próximos 12 a 24 meses, e planeje a transição antes que o mercado force isso.
4. Invista em literacy (alfabetização) em IA. Não se trata de contratar uma ferramenta e treinar todo mundo de cima para baixo. Dê acesso, eduque sobre governança de dados e deixe a adoção acontecer organicamente.
5. Teste agentes de IA hoje. O palestrante sugeriu o Claude Sonnet (versão paga, aproximadamente R$ 100/mês) com o recurso Computer Use, que permite ao agente assumir o controle de um computador e executar tarefas visualmente.
O futuro do valor humano na era da IA
Ao final da palestra, Arthur Igreja deixou uma reflexão que ecoou entre os varejistas presentes: a IA não veio para substituir humanos, mas revelou que grande parte do que humanos faziam era, na verdade, trabalho de máquina.
Para o varejo de perfumaria, a mensagem é clara: a IA é uma ferramenta poderosa, mas o diferencial continuará sendo humano — o discernimento, o repertório, a capacidade de pensar e, acima de tudo, a capacidade de validar, direcionar e assumir a responsabilidade pelo que a IA produz.
“Usar IA em 2026 é pré-requisito, é mandatório. Daqui a 10 anos isso não será diferencial, vai ser sobrevivência. O que a tecnologia se torna ao longo do tempo? Commodity. E commodity não dá dinheiro. O que dá dinheiro é a cognição humana.”
