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Judicialização avança no e-commerce e pressiona operações de beleza a rever atendimento e compliance

Com aumento de processos e consumidores mais informados, especialistas como Neander Souza e a advogada Thais Kurita apontam que atendimento, tecnologia e prevenção se tornam estratégicos para reduzir custos e preservar reputação

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Por Redação em 04/04/2026 Atualizado: 04/04/2026 às 11:38
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A judicialização no e-commerce, que afeta 18,74% das lojas virtuais, exige que empresas do setor de beleza revisem suas operações de atendimento e compliance, conforme apontam especialistas. O comportamento de consumidores mais informados, que buscam soluções rápidas para problemas, está elevando o risco de insatisfação e conflitos judiciais, especialmente em questões de trocas e devoluções. A falta de clareza nas políticas e a ineficiência no atendimento agravam a situação, impactando negativamente a reputação das marcas. A tecnologia, como a inteligência artificial, surge como uma alternativa para mitigar esses problemas, mas deve ser utilizada de forma estratégica, integrando automação e atendimento humano. O foco em um atendimento de qualidade não só reduz custos, mas também se torna um diferencial competitivo essencial no mercado atual.
Resumo supervisionado por jornalista.

A judicialização não pode mais ser tratada como um evento isolado dentro do e-commerce, já ela está se consolidando como uma frente estrutural de custo e gestão. Os dados mostram que 18,74% das lojas virtuais já enfrentaram ao menos um processo judicial, sendo que, entre essas, 35,09% lidam com apenas uma ação, mas há operações que acumulam múltiplos processos simultaneamente.

Este fenômeno revela uma transformação no comportamento do consumidor e no nível de maturidade do mercado. Um cliente mais informado, que conhece seus direitos e exige resoluções rápidas, impõe uma nova régua para empresas, onde troca, expectativa de resultado e sensibilidade do uso elevam o risco de insatisfação.

A ponta visível de um problema maior

Para a advogada Thais Kurita, especializada em estratégia de varejo, o erro mais comum das empresas é enxergar a judicialização apenas pelo impacto financeiro direto, ignorando o efeito sistêmico que ela gera no negócio.

“A ação judicial não é só a ação judicial. É a imagem, a reputação, pessoas que sequer vão chegar a comprar da marca. É a ponta do iceberg”, diz Thais Kurita.

Segundo ela, o prejuízo não se limita ao valor da causa. Existe um passivo invisível que se acumula na percepção de marca, impulsionado pelo boca a boca e potencializado em escala exponencial no ambiente digital.

Consumidor informado: risco ou ativo estratégico?

Para Neander Souza, especialista em inteligência artificial, o avanço da judicialização deve ser interpretado sob outra ótica:

“O consumidor que pesquisa antes de comprar não é um obstáculo, é um ativo.”

No setor de beleza, esse comportamento pode reduzir devoluções, aumentar a conversão e elevar o ticket médio. Mas, quando há falha na entrega ou no atendimento, ele também acelera o caminho até o conflito e, em última instância, até a judicialização.

Thais Kurita complementa essa análise ao relativizar a ideia de que o aumento de processos está ligado apenas à evolução do consumidor:

“A pessoa vai para o judiciário quando não conseguiu resolver um problema fora dele. É preciso olhar também para um atendimento ineficiente.”

Além disso, a advogada aponta dois outros fatores relevantes: o possível abuso do direito por parte do consumidor e o crescimento acelerado do e-commerce, que amplia naturalmente o volume de conflitos.

Trocas, devoluções e atendimento

Grande parte das disputas nasce em pontos já conhecidos do varejo: trocas, devoluções e atendimento ao consumidor.

Para Kurita, um dos principais gargalos está na falta de estrutura e clareza nos processos:

“Políticas com juridiquês, letra miúda ou difíceis de entender são antiquadas, e até ilegais. A informação precisa chegar e ser compreendida.”

Nesse contexto, o pós-venda ainda é um ponto crítico em muitas operações. Falta resolução ágil, autonomia nos atendimentos e continuidade na comunicação – fatores que, quando ausentes, aumentam a frustração e aceleram o caminho para conflitos formais.

Na prática, o consumidor não diferencia canais. Ele enxerga uma única marca e cobra consistência.

O custo da má experiência

Se a judicialização representa um custo direto, o impacto indireto pode ser ainda maior.

“Um cliente insatisfeito pode representar uma perda de R$ 200 a R$ 1 mil ao longo do tempo”, destaca Souza.

Mas, como reforça Kurita, o efeito mais relevante está na reputação:

“Quantos clientes sequer vão comprar porque ficaram sabendo dos problemas? Isso não aparece na ação judicial.”

Em um ambiente onde avaliações negativas impactam diretamente na conversão e no custo de aquisição, um erro operacional deixa de ser pontual e passa a contaminar toda a estratégia de crescimento da empresa.

IA e automação: redução de custo e prevenção de conflitos

A tecnologia surge como uma aliada direta na contenção da judicialização. Hoje, cerca de 30% dos atendimentos no e-commerce já são resolvidos por inteligência artificial, com projeção de chegar a 50% até 2027.

Além do impacto financeiro, com custo por atendimento significativamente menor, a IA contribui para:

  • Redução do tempo de resolução de problemas
  • Diminuição de retrabalho e logística reversa
  • Maior precisão em dúvidas recorrentes

Mas, especialistas alertam: tecnologia sem estratégia pode agravar o problema.

“O erro mais comum é usar a tecnologia como barreira, e não como solução”, afirma Souza.

O modelo mais eficiente é híbrido: automação para escala e humanos para momentos sensíveis.

Atendimento como estratégia 

Para Kurita, tratar atendimento como investimento é essencial:

“O fornecedor é objetivamente responsável. E os danos reputacionais hoje se espalham com velocidade. Por isso, atendimento e política ao consumidor são investimentos.”

Entre as práticas prioritárias estão:

  • Políticas claras e acessíveis
  • Resolução rápida e padronizada de problemas
  • Autonomia nos atendimentos
  • Integração entre canais
  • Comunicação transparente

Essas ações impactam diretamente na retenção, eficiência e crescimento.

“O atendimento é o novo marketing. A experiência é o novo produto. E a IA é o multiplicador que permite entregar ambos em escala. A pergunta não é se você pode investir nisso. É se você pode se dar ao luxo de não investir”, diz Neander Souza.

O aumento da judicialização reflete um mercado mais estruturado e consumidores mais ativos.

Quem não estruturar atendimento, compliance e experiência do cliente vai pagar — seja em processos, seja em perda de mercado, ou em ambos.