Um fenômeno inusitado está unindo dois mundos que, até pouco tempo, pareciam distantes: o dos medicamentos para emagrecer e o da indústria capilar. O motivo é a queda de cabelo, um dos efeitos colaterais mais relatados por quem usa as chamadas canetas emagrecedoras, e que, ironicamente, tem impulsionado o lançamento e as vendas de produtos voltados para melhorar o volume e a densidade dos fios.
O canal perfumaria, apesar do momento desafiador, também pode se beneficiar dessa demanda crescente por soluções capilares especializadas. Dados do Instituto Locomotiva, por exemplo, mostram que 33% dos lares brasileiros têm ao menos um morador que usa ou já utilizou canetas emagrecedoras. A expectativa é que esse número cresça ainda mais com a disponibilização da medicação no SUS e a redução de preço entre 10% e 15% provocada pela expiração da patente no país.
O impacto da queda capilar na categoria hair cresce
Para além das farmacêuticas, há todo um ecossistema se beneficiando do consumo das canetas emagrecedoras. E o varejo de beleza é um deles. Na semana passada, a CEO da Ulta Beauty, Kecia Steelman, afirmou ao programa Opening Bid, do Yahoo Finance, que essa tendência está impulsionando a demanda por produtos de beleza. “A queda de cabelo associada aos GLP-1 é real e existem cosméticos que podem ajudar a combatê-la”, disse Steelman.
Ela tem razão. “Embora a queda de cabelo não seja um efeito colateral direto do medicamento, o uso da semaglutida e de outras substâncias presentes nas canetas emagrecedoras pode levar à perda de peso rápida e causar deficiências nutricionais. Essas alterações podem desencadear condições como a queda temporária de cabelo, que geralmente acontece entre dois e quatro meses do início do uso do remédio”, explica o dermatologista Gabriel Lazzeri Cortez. “Quem usa doses mais altas desses medicamentos sem a devida supervisão médica e acompanhamento nutricional tem maior risco de queda de cabelo”, completa a dermatologista Jade Cury, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia regional São Paulo.
Marcas de beleza reagem com inovação e lançamentos
A indústria da beleza, claro, está reagindo fortemente ao efeito colateral das canetas emagrecedoras no cabelo, lançando linhas de hair care que atuam principalmente na melhora da densidade e do volume dos fios.
Em novembro do ano passado, e após quadruplicar a receita na categoria de cabelos nos últimos quatro anos, o Grupo Boticário anunciou seu Centro de Pesquisa e Ciência Capilar, iniciativa sustentada por investimento robusto em pesquisa e tecnologia. O projeto conta com parceria de P&D com o Hospital Israelita Einstein e com a TRI Princeton, instituição referência mundial em estudos sobre cabelo e couro cabeludo.
Já em março, a Eudora Siàge aumentou seu portfólio com Volume Imediato, linha desenvolvida para combater o afinamento capilar e entregar a sensação de +44 mil fios já no primeiro uso.
A Wella, por sua vez, apresentou o Tratamento Poderoso da linha Koleston, que passou a ser comercializado separadamente do kit de coloração e em bisnaga para uso rápido. Sua fórmula com tecnologia Plex foi desenvolvida para reconstruir ligações internas da fibra, aumentar a resistência à queda e repor brilho em cabelos submetidos a processos químicos ou agressões mecânicas.
O Grupo L’Oréal respondeu a demanda com Elseve Collagen Lifter, considerado seu maior lançamento do ano da marca líder do segmento no Brasil.

Como a perfumaria pode aproveitar a demanda
A perfumaria enfrenta um momento delicado. Dados do Radar Scanntech de março deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025, mostram que o canal registrou queda consolidada de 5,5% no faturamento e de 13% no volume de unidades vendidas. Entre os fatores apontados está a sensibilidade ao preço no ponto de venda.
O segmento de tratamento capilar aparece como o principal detrator de performance no período, com recuo de 7,2% em valor e perda volumétrica de 15,6%. Itens de alta performance, como ampolas de tratamento, sofreram a maior retração em valor, de 18,1%, indicando que o consumidor percebe esses produtos como supérfluos no atual cenário, preferindo investir na estética imediata da cor.
Ainda assim, o varejo de beleza pode encontrar na demanda por produtos antiqueda capilar uma oportunidade de reverter parte desse quadro. A chave está em entender que, enquanto a perfumaria retrai, o varejo alimentar cresce 4,3% no primeiro trimestre no segmento capilar. Sinal de que o consumidor está migrando para a compra de reposição durante o abastecimento do lar.
“O crescimento do volume de itens complementares de autocuidado nos supermercados desafia a perfumaria a fortalecer seus diferenciais competitivos — como o mix de marcas profissionais e a consultoria técnica especializada — para fidelizar um consumidor cada vez mais exigente e seletivo”, diz Felipe Passarelli, head de inteligência de mercado da Scanntech Brasil.
Ou seja, a demanda por soluções contra a queda capilar existe e está em alta. Para a perfumaria, o desafio agora é transformar esse interesse em vantagem competitiva, oferecendo não apenas produtos, mas expertise e atendimento qualificado que o supermercado não pode entregar.
