Por anos, o cuidado com o corpo ficou em segundo plano nas prateleiras das perfumarias: de um lado, o skincare facial com seus séruns, ácidos e rotinas de múltiplas etapas; de outro, o hidratante corporal tradicional, muitas vezes tratado como commodity. Esse desequilíbrio começa a se desfazer.
O segmento de body care no Brasil registrou crescimento de 40% em valor nos 12 meses até setembro de 2025, sendo a maior contribuição de alta dentro da categoria de skincare como um todo, segundo dados da Circana. O movimento é impulsionado por um novo comportamento do consumidor, que passa a encarar a pele do corpo como parte fundamental da rotina de cuidado, bem-estar e envelhecimento saudável.
Os números que colocam o Brasil no mapa global do setor também impressionam: enquanto o mercado total de skincare ocupa a oitava posição no ranking global, com vendas de R$ 22,3 bilhões em 2024, o body care respondeu por quase metade desse total — R$ 12,1 bilhões — colocando o país como segundo maior mercado mundial de cuidados corporais, atrás apenas dos Estados Unidos, de acordo com a Euromonitor. E o ritmo de crescimento previsto para o Brasil supera o do mercado global: a previsão da Euromonitor é que o segmento cresça 47% no país, chegando a R$17,8 bilhões até 2029.
O que é a skinificação
O termo “skinificação do corpo” resume uma transformação de produto e de mentalidade. Pescoço, colo, mãos e até couro cabeludo entram na rotina com produtos inspirados em fórmulas faciais, refletindo um novo olhar sobre os cuidados em que cada parte do corpo merece o mesmo nível de atenção e tratamento, segundo análise da Beleza na Web.
Do ponto de vista de formulação, a mudança é concreta: ingredientes como niacinamida, ceramidas e peptídeos estão sendo incorporados a loções, séruns e esfoliantes corporais para tratar questões como hiperpigmentação, acne corporal e comprometimento da barreira cutânea. O hidratante genérico perde espaço para produtos com ativos específicos, promessas verificáveis e posicionamento claro.
Segundo Rodrigo Cura, diretor regional de vendas de Home & Personal Care da IFF, 47% dos consumidores brasileiros já consideram o cuidado corporal tão importante quanto o facial. Esse dado, sozinho, deveria reposicionar o espaço que o body care ocupa dentro de qualquer ponto de venda especializado.
O que já está chegando às prateleiras
Grandes marcas e players nacionais já movimentaram seu portfólio em resposta a esse movimento. A Nivea, presença consolidada nas prateleiras de perfumarias, ampliou sua linha corporal com fórmulas de ácido hialurônico e ceramidas que dialogam diretamente com a linguagem do skincare facial.
A Labotrat é um exemplo certeiro da tendência: a marca lançou séruns corporais com tecnologia Ultra Effect 4D, promessa de hidratação por até 72 horas, e tem produtos como o hidratante facial e corporal com prebióticos, colágeno e elastina, que funcionam em face e corpo simultaneamente. A marca também aposta em esfoliantes, séruns clareadores para áreas específicas do corpo e linhas com ativos funcionais que já fazem parte do vocabulário do skincare, chegando às perfumarias com um portfólio que une resultado e experiência sensorial.
Oportunidade para o varejo
A oportunidade é real, mas capturá-la exige algumas mudanças práticas no ponto de venda:
- Rever o mix – a gôndola de body care não pode mais ser composta apenas por hidratantes de entrada. É preciso incluir séruns corporais, produtos com ativos específicos (ácido hialurônico, ceramidas, niacinamida) e itens voltados a áreas além do rosto. A demanda por soluções que tratem hiperpigmentação e firmeza corporais cresce globalmente, o que significa que o consumidor já está buscando esses produtos.
- Reformular o discurso de vendas – o consumidor quer evidências, segurança, personalização e ciência acessível para cuidar da pele. O vendedor que souber explicar o que a niacinamida faz no corpo, ou por que um sérum corporal difere de um hidratante comum, terá vantagem significativa na conversão.
- Trabalhar a exposição por categoria de benefício – o consumidor de skincare facial já está acostumado a buscar por ativo ou resultado. Levar essa lógica para o body care facilita a navegação e aumenta o ticket médio de compra.
- Apostar na experiência sensorial – a valorização das texturas cresce como tendência de skincare para 2026: o consumidor moderno busca produtos eficazes que também proporcionem prazer na aplicação.
O momento é agora
O varejo de beleza que já se especializou em skincare facial tem, nesse movimento, uma vantagem natural: a linguagem já é conhecida, o consumidor já foi educado, e a lógica de ativos e resultados já faz parte da conversa no balcão. Trazer esse mesmo repertório para o cuidado corporal é estendê-lo de forma lógica para onde o mercado já está indo.
A prateleira de body care está se tornando uma das mais estratégicas da loja. Quem reposicionar o mix agora sai na frente.

Triskle