A lógica tradicional de antecipar o futuro por meio de relatórios anuais de tendências está com os dias contados. Essa foi uma das principais provocações da CEO do Future Today Strategy Group e professora na NYU Stern, a futuróloga Amy Webb, durante sua apresentação no SXSW 2026, 2026, um evento tido como bússola criativa para quem quer antecipar o amanhã. Para a especialista, o relatório, que durante 19 anos orientou decisões estratégicas de marcas, incluindo o setor de beleza, já não responde à velocidade e à complexidade do cenário atual.
Segundo Webb, relatórios estáticos não conseguem acompanhar um ambiente em que tecnologia, comportamento e mercado evoluem de forma simultânea e exponencial. O que está em jogo agora não é apenas identificar tendências, mas construir sistemas contínuos de leitura de futuro – uma mudança que impacta diretamente como marcas de beleza inovam, se posicionam e se conectam com o consumidor.
“Você não pode fazer o mundo voltar a ser o que era. Às vezes, é preciso queimar o que você construiu para abrir espaço para o que o futuro exige”, afirmou a futuróloga Amy Webb, justificando o ato de “matar” o relatório tradicional para dar lugar a algo novo.
Do relatório anual ao monitoramento contínuo
Com uma combinação de dados, narrativa e encenação, a futuróloga anunciou o lançamento do Emerging Tech Trend Report de 2026 para declarar a “destruição criativa” do próprio relatório de tendências tradicional.
A principal virada proposta por Webb é sair de uma lógica de previsões pontuais para uma operação baseada em inteligência contínua. No lugar de consolidar insights uma vez por ano, empresas devem monitorar sinais em tempo real, cruzando dados de tecnologia, comportamento e mercado.
Para quem trabalha no varejo de beleza brasileiro, o gesto de Webb não foi apenas simbólico. O setor que deve crescer de US$ 37 bilhões em 2025 para US$ 52 bilhões até 2030, segundo dados da Mordor Intelligence, convive com uma tensão crescente: abundância de tendências, escassez de estratégia. Marcas, perfumarias e distribuidores têm acesso a mais informação do que nunca e ainda assim sentem dificuldade em traduzir esse volume em decisões que durem mais de uma estação.

A distinção que Webb propõe é estratégica. Tendências funcionam como dados meteorológicos isolados: temperatura, vento, umidade. Cada uma informa algo real. O problema é que nenhuma delas, sozinha, explica a tempestade.
Para o varejo de beleza, essa analogia é quase literal. Nos últimos três anos, o setor conviveu com ao menos uma dúzia de “tendências do momento”. Cada uma gerou coleções, reformulações de gôndola e campanhas. Algumas vingaram. Muitas evaporaram com a próxima virada de estação no TikTok.
O que Amy Webb propõe é olhar por baixo do ruído, mais especificamente para os vetores estruturais que, ao convergirem, tornam certas transformações inevitáveis independentemente da moda do trimestre. E, ao mapear as três grandes convergências que identificou para os próximos 24 meses, a futuróloga involuntariamente produziu um mapa de risco e oportunidade para a indústria de beleza. Estamos falando de:
- Amplificação humana
Wearables, monitoramento contínuo e interfaces biométricas vão transformar a relação do consumidor com o próprio corpo e com os produtos que cuidam desse corpo. No varejo de beleza, isso se traduz em skincare diagnóstico, cosméticos sob demanda e experiências de compra personalizadas em tempo real.
- Trabalho ilimitado
A automação de operações — de estoque à atendimento — já é realidade em redes globais. Para perfumarias e distribuidores brasileiros, a convergência entre inteligência artificial e logística vai redefinir a eficiência do canal, tornando a inteligência de dados o principal ativo competitivo.
- Terceirização emocional
À medida que conexões emocionais migram para plataformas e agentes digitais, o varejo físico de beleza se torna um dos últimos territórios de presença genuína. Perfumarias, salões e clínicas de estética passam a competir não só por produto, mas por pertencimento e experiência sensorial insubstituível.
O Brasil como território de convergência
Existe uma razão específica pela qual as convergências de Amy Webb fazem sentido particularmente para o mercado brasileiro. O Brasil não é apenas um grande consumidor de beleza, mas um laboratório de inovação em escala. O país ocupa a terceira posição global em lançamento de produtos cosméticos, atrás apenas de Estados Unidos e China. Isso significa que as forças que a futuróloga descreve não chegarão ao varejo brasileiro como tendência importada. Elas já estão emergindo por aqui!
A Beauty Fair, ao levar líderes do varejo ao Vale do Silício no início de 2026 e firmar parceria com a Scanntech para inteligência de dados em perfumarias, conectando uma base de 40 mil pontos de venda, demonstra justamente essa transição: do olhar para tendências ao raciocínio sobre convergências. Afinal, a perfumaria, canal onde nascem e se consolidam as grandes inovações de beleza, precisa de dados tão sofisticados quanto os das grandes redes alimentares para sustentar esse movimento.
O consumidor que emerge nesse cenário é mais difícil de categorizar e mais exigente. Para ter ideia, quase 70% dos brasileiros afirmam usar produtos de beleza para se sentirem bem, e não apenas para parecerem melhores. Essa nuance é estratégica: ela indica que a demanda por beleza não é superficial nem frágil diante de ciclos econômicos. É emocional, estrutural e, portanto, resiliente.
Oportunidades reais para o setor
Traduzir as convergências de Webb em ações concretas exige sair do nível da abstração. Para o varejo de beleza brasileiro, quatro oportunidades emergem com clareza nos próximos 24 meses; são elas:
- Diagnóstico como serviço
Ferramentas de análise de pele, cabelo e microbioma deixam de ser curiosidade e viram serviço padrão nas perfumarias de ponta. Varejistas que integrarem diagnóstico ao processo de compra constroem vínculo com o consumidor impossível de replicar no digital.
- Inteligência de dados no PDV
A parceria entre Beauty Fair e Scanntech aponta o caminho: dados de 40 mil PDVs transformados em insights acionáveis de margem e sortimento. Perfumarias que adotarem inteligência de dados sairão na frente em gestão de portfólio e reposição inteligente.
- A loja como terceiro lugar emocional
Enquanto as conexões migram para o digital, o espaço físico de beleza ganha nova função: ritualidade, presença e sensorialidade. Lojas que apostarem em experiência se diferenciam de um e-commerce que cresce três vezes mais rápido, mas não substitui o acolhimento.
- Beleza funcional e emocional
A busca por “beleza inteligente” – produtos que unem estética, cuidado e bem-estar emocional – é a resposta do consumidor às convergências. Marcas e varejistas que comunicarem propósito, transparência e cuidado integral conquistarão a lealdade que tendências isoladas nunca sustentaram.

Destruição criativa na gôndola
Existe um detalhe curioso sobre a apresentação de Amy Webb: ela anunciou a morte do documento em um PDF. A ironia não passou despercebida pela plateia. E ela é, talvez, a parte mais honesta da mensagem.
Destruição criativa não significa jogar fora o que funciona, mas ter coragem de questionar os formatos que parecem confortáveis, e que já não geram decisões melhores. Para o varejo de beleza, o equivalente pode ser a planilha de previsão de giro que não conversa com os dados do PDV. A coleção sazonal construída sobre o que o concorrente fez, não sobre o que o consumidor sinalizou. A régua de sortimento que não diferencia por perfil de cliente.
Webb terminou o SXSW 2026 com dois futuros possíveis. Em um deles, a tecnologia amplifica a desigualdade e fragmenta a experiência humana. No outro, a tecnologia serve como ferramenta de contribuição genuína – e o que cada setor escolher fazer com isso importa. Para o varejo de beleza, setor que gera cerca de 7 milhões de empregos no Brasil e que tem a proximidade com o consumidor como seu ativo mais profundo, essa escolha já está em curso. Cada loja, cada PDV, cada formação de profissional é um voto no segundo cenário.
As convergências constroem o próximo mercado. A pergunta não é mais o que vai estar em alta na próxima temporada, mas que tipo de negócio de beleza você quer ser quando a tempestade passar.

Triskle